O Mistério da Estrada de Sintra

Eça e RamalhoEm Julho de 1870, a secção do folhetim do jornal Diário de Notícias começa a publicar uma série de cartas assinadas por pessoas que pedem que as suas identidades sejam ocultadas por razões de privacidade das pessoas mencionadas. Quem conta as primeiras informações é um médico que, seguindo de Sintra para Lisboa a cavalo, é inteceptado com um amigo por um grupo de mascarados que se encontravam junto ao uma carruagem. Os mascarados pedem aos dois que entrem na carruagem e levam-nos até uma casa. Numa das divisões, decorada como se fosse lugar de encontros amorosos, está um homem morto deitado numa chaise longue. Nessa mesma noite, entra na casa um jovem estudante que tem conhecimento de quem é o homem, o que estava ali a fazer e como morreu. Todas as cartas publicadas depois desta deslindam o mistério da identidade do morto, da forma como morreu e a identidade da mulher que ali esteve. A solução do mistério chega em Setembro, quando Eça de Queirós e Ramalho Ortigão assinam as cartas como sendo da sua autoria.

Para os entendidos e conhecedores da literatura, este “Mistério” é designado o primeiro livro que pode ser considerado como fazendo parte do género policial. Apesar dos extensos momentos de descrição onde o dedo de Eça de Queirós está bem vincado, o leitor consegue ficar facilmente vidrado neste mistério. As doses de suspense são bem equilibradas, aqueles pequenos detalhes para agarrar o leitor são atirados para a trama nos momentos certos de maneira a que este fique sempre a tentar perceber onde é que aquela peça se vai encaixar no puzzle do enredo. O texto por si só dá pistas de que o enredo não é verdadeiro quando de repente surge Carlos Fradique Mendes, o dandy inventado por alguns membro do movimento literário da Geração de 70. De aplaudir também o facto de Eça e Ortigão terem montado o esquema de cartas de uma forma tão perfeita de modo a que nenhuma carta apareça fora de lugar ou fora do sentido. Por isso, quer gostem de livros de Eça ou quer gostem de livros policiais, este é um livro a ler.

Classificação: 5/5

A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos daqueles que me haviam ocupado durante a noite. Há pensamentos que não vivem senão no silêncio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; há outros que só surgem ao clarão do Sol.

2 pensamentos sobre “O Mistério da Estrada de Sintra

  1. O Mistério da Estrada de Sintra, Isabel, foi seguido (contou-me a minha avó, nascida em 1890) por quase toda a comunidade alfabetizada e até mesmo pela outra, porque era lido nos serões de família e ouvido, pelos iletrados, com a mesma atenção com que hoje os letrados seguem a Casa dos Segredos (esta da Casa dos Segredos é da minha lavra). Há, no entanto, uma diferença abismal entre o “Mistério” e a “Casa”, salvo melhor opinião: o livro foi elaborado por gente inteligente. Cumprimentos.

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