Lourenço Marques

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Para Miguel, a Lourenço Marques da sua infância tinha três imagens marcantes: o pôr do sol junto ao Clube Naval, o fio de coqueiros junto ao hotel Polana e a piscina do hotel. Piscina essa onde viu vezes sem conta Maria de Lurdes, a judia de cabelos negros que um dia despiu o fato de banho até à cintura dentro de água para ele ver. Vinte e sete anos depois de o seu pai anunciar à família que voltavam para a Metrópole, Miguel volta para procurar aquela mulher que ficou para sempre associada àquele periodo da sua vida. Percorrendo várias cidades de Moçambique, Miguel recorda a história do país e a sua própria história. Já Domingos Assor, capitão da polícia, vê-se com um daqueles casos que ninguém quer em mãos. Gustavo Madane, um ex-combatente da FRELIMO caído em desgraça, aparece morto no recinto da Feira Internacional e cabe a Assor desvendar o que se passou. Se bem que num caso como o de Madane, o que interessa é encerrar o caso e não o desfecho do mesmo.

Não sei porquê mas acho que só mesmo os escritores com as suas origens em África conseguem dar às descrições daquele continente a magia das sensações. Francisco José Viegas tem-nas, abundantes e sensoriais mas não soam à mesma coisa. Eu sei, é estranho. Estranho e confuso. Confuso como o enredo e confusas como podem ser as memórias. Um enredo que muitas vezes é repetitivo, tal como as memórias que em certos momentos nos assaltam o espírito vezes sem conta. Esse é mesmo o tema mais básico do livro, as memórias, a nostalgia de um tempo que já passou, de sítios onde fomos felizes, de pessoas que nos marcaram com a sua presença ou o seu sorriso. E é daí que vem toda a sua magia. Aquilo que transforma um livro que até pode ser complicado de ler num exercício de retrospectiva interessante. Não vai agradar a todos, tenho a certeza. Mas quem for fã do género, acho que vai ter uma agradável surpresa.

Classificação: 4/5

Estava, senhor Miguel. Estava mais limpa, havia mais carros, carros de brancos, naturalmente, ruas mais limpas para os brancos não tropeçarem na merda, casas limpas para os brancos não viverem no meio da merda. Mesmo os pretos tinham menos merda à volta. Lourenço Marques. Sabe como se chamava a Lourenço Marques? A Pérola do Índico. Guerra no Norte e no interior, mortos de um lado e do outro, mas a Pérola do Índico era uma exceção, o meu pai vivia em Nacala e gostava de vir a Lourenço Marques, onde até os pretos eram menos pretos. Mas o senhor é branco, senhor Miguel. Lourenço Marques é um nome que ainda soa a qualquer coisa, a mim não me importa. A cidade das acácias vermelhas. A cidade das acácias rubras, senhor Miguel, a pérola do Índico.

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