A Mão do Diabo

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De um momento para o outro, a palavra crise passou a fazer parte do quotidiano de toda a gente. Ninguém escapa às suas malhas, nem mesmo o historiador Tomás Noronha. Devido a cortes orçamentais na Universidade onde leccionava, Noronha foi despedido, começando, assim, a sua luta para manter dinheiro no bolso. Foi no regresso de uma longa espera no Centro de Emprego que o historiador encontrou um velho amigo, Filipe Madureira. Este estava em mau estado e muito agitado, sempre a olhar por cima do ombro para ver se não era seguido. Noronha vem a perceber muito mais tarde que Filipe sabia demais sobre os grandes culpados da crise económica mundial e que lhe deixou um criptograma contendo a localização de um DVD revelador com todas provas.

É já uma inevitabilidade ligar a TV ou abrir um jornal e ouvir falar em crise, austeridade, cortes ou economia pura. Por isso mesmo, encontrar tema mais actual para um livro é impossível. Pegar num tema destes tem também os seus perigos. Um deles é o enredo parecer um papaguear de todo esse discurso com que somos bombardeados a um ritmo diário. Para mim, este livro cometeu esse pecado. A distribuição entre o peso das duas visões da acção (de um lado Noronha, do outro Magus e o seu grupo de simpatia satânica) não é harmoniosa. De meio para o fim do livro, encontramos longos capítulos onde são debitados testamentos de informação intercalados com capítulos minúsculos de acção pura. Convenhamos que nem toda a gente tem paciência para tanto volume informação. Nos momentos em que Rodrigues dos Santos não nos está a massacrar com detalhes da economia, o enredo desenvolve-se com rapidez, não dando ao leitor espaço para mais tempos mortos. Outro dos grandes pecados do autor é a personalidade que ele dá ao personagem Tomás Noronha. Isto de a personagem pender sempre para um estilo Don Juan de trazer por casa e que se enrola com todas as mulheres com quem se cruza começa a cansar ao fim de alguns livros. Em jeito de conclusão, se gostarem da escrita de Rodrigues dos Santos e estiverem particularmente interessados no tema economia, vão gostar. Se lerem apenas por gostar da escrita do autor, preparem-se para apanharem algum tédio.

Classificação: 2/5

Trata-se de um problema geral e fundamental das nossas democracias. Na raiz de todas as dificuldades não estão as falhas ideológicas da direita e da esquerda, embora contribuam seriamente para elas, mas essa questão fundamental de os políticos porem a sua eleição à frente de tudo. É isso que viabiliza a corrupção no financiamento partidário e as interferências dos poderes económicos e financeiros nas decisões políticas, permitindo todos os joguinhos que põem interesses particulares à frente dos interesses colectivos.

5 pensamentos sobre “A Mão do Diabo

    • Eu até entendo a ideia do autor. Quer dar sumo à personagem para quue ela não seja um simples historiador com um grande crânio para tudo o que é linguas mortas e enterradas com um jeitaço para decifrar enigmas. O problema é que ele tanto quer compensar que a estraga completamente.
      Nos primeiros livros, verdade seja dita, o Noronha até era uma personagem tolerável, nem 8 nem 80. A partir d’ O Sétimo Selo, a meu ver, descarrilou .
      Obrigada pela visita e boas leituras🙂

    • JRS é um bom autor. Os livros que estão fora da “saga Noronha” são muito interessantes. O problema da “saga Noronha” é precisamente o Noronha. Não tenho paciência para personagens assim, o estilo Don Juan da Linha de Cascais não bate certo com a imagem que ele dá ao homem.
      Boas leituras🙂

  1. Concordo contigo, Isabel Maia. Já li as outras obras do autor e gostei de todas elas. O meu livro preferido fora Tomás Noronha é mesmo “A Ilha das Trevas”. “A Filha do Capitão” também tem um registo muito bom. Já “A Vida num Sopro” foi o que gostei menos, mesmo assim consegue ser bem mais apaixonante do que as histórias de agora com o nosso Tomás Noronha. Talvez seja mesmo esse estilo de herói que enfadonhe o leitor…😉

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