A Filha da Fortuna

Isabel Allende

Valparaiso, 1832. Para Miss Rose Sommers, o dia 15 de Março foi um dos mais marcantes da sua vida. Ela que jurava a pés juntos que nunca iria casar porque “todos os maridos são aborrecidos”, já tinha perdido as esperanças de alguma vez ter filhos. A pequena Eliza, deixada à porta dos Sommers dentro de uma caixa de sabão, mudou por completo essa rotina. Criada entre a disciplina e a etiqueta de Miss Rose e o misticismo da cozinha de Mama Fresia, Eliza cresceu e tornou-se uma jovem com uma beleza peculiar. Ao mesmo tempo, a recém anunciada descoberta de ouro na zona da California, Estados Unidos da América, fez com que a Febre do Ouro se espalhasse por todo o lado, Chile incluído. Essa febre arrastou Joaquin Andieta, um jovem inventariador da Companhia Britânica de Exportação. É por amor a Andieta que os caminhos de Eliza Sommers e Tao Chi’en, um médico chinês que serviu a bordo de um dos barcos do capitão John Sommers, se cruzam para nunca mais se separarem.

Que hei-de dizer… Isabel Allende é sempre Isabel Allende. Até ao dia de hoje não houve um livro desta senhora chilena que me tenha desapontado. A sua imagem de marca está lá. É o relato emocionante dos acontecimentos, no seu registo muito próprio. Tudo é envolto em realismo, em sensações. Só alguém com uma pedra no lugar do coração é que não fica angustiado com as condições miseráveis dos bairros pobres primeiro de Valparaiso e depois de São Francisco; com as condições deploráveis de escravidão das sing sing girls, vítimas de trafico humano; com a brutalidade e crueldade das condições dos mineiros um pouco por todo o lado da California. Allende escreve como quem fotografa: as cores, os traços, as imagens ficam bem definidos. Outro dos pontos muito vincados em Allende é o poder do enredo. A autora pega-nos na mão e leva-nos pelo caminho que ela quer, o caminho sempre mais sinuoso e emocionante, o caminho que nos cola às páginas desejosos de saber qual o destino da jovem Eliza. Por fim, a habitual centralidade nos elementos femininos da história. Miss Rose, Mama Fresia, Eliza, Paulina e tantas outras são todas mulheres com personalidade forte e que não se rendem perante as adversidades. Esta é, definitivamente, a melhor maneira de começar uma espécie de trilogia de enredo que vai terminar com algumas das minha personagens literárias preferidas, Rosa e Clara del Valle.

Classificação: 5/5

A febre do ouro não deixou ninguém indiferente: ferreiros, carpinteiros, professores, médicos, soldados, fugitivos da justiça, pregadores, padeiros, revolucionários e loucos mansos do mais variado aspecto tinham deixado para trás famílias e bens para atravessar meio mundo atrás da aventura. “Procuram ouro e pelo caminho perdem a alma”, repetira incansavelmente o capitão Katz em cada um dos breves ofícios religiosos que impunha aos domingos aos passageiros e à tripulação do Emília, mas ninguém fazia caso, ofuscados pela ilusão de uma riqueza súbita capaz de mudar as suas vidas.”

2 pensamentos sobre “A Filha da Fortuna

  1. Também gosto muito de Isabel Allende, muito embora ainda não tenha lido assim tantos livros da autora. Dos que li, gostei imenso “Inés da Minha Alma”. Depois desta tua opinião, fiquei com vontade de o ler.
    Boas leituras!

    • Tirando a JK Rowling (graças à maratona Harry Potter deste ano), Allende é das autoras que mais livros li. A escrita dela é um daqueles amores que dura toda a vida. Hei-de ser velhinha e ainda ler ou reler Allende.

      Obrigada pela visita e boas leituras 🙂

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