Domingos Poéticos #16

Poema à Mãe

No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal… 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 

Eugénio de Andrade

4 pensamentos sobre “Domingos Poéticos #16

  1. Ola Isabel,

    isto e um lindo poema!

    A minha poeta preferida e a Sylvia Plath. Eu sei que os trabalhos dela sao morbidos…. mas ha algo no ritmo das palavras dela que eme atrai muito, acho que e a honestidade das palavras.

    Ciao.

    • Olá Marcio

      Confesso que não conheço a obra de Sylvia Plath. Tenho que me aventurar num futuro próximo.
      Este poema é realmente muito bonito. Fiquei fã de Eugénio de Andrade desde que estudei um pouco da sua obra no Secundário.

      Boas leituras

  2. Olá, Isabel,.
    Demorei algum tempo a comentar este poema. Eu penso que, “quase vi” Eugénio de Andrade a escrevê-lo. Chovia nessa tarde domingueira de Novembro. Eugénio costumava sentar-se na mesa em frente a mim, o café era o Estrela, na rua da Fábrica, no Porto. Eu estudava, já me não lembro para qual exame, e ele fazia poesia. Depois levantou-se e falou comigo, era seu costume falar comigo ou com um qualquer dos meus amigos que faziam daquele café a sua sala de estudos. Falou-me de poesia, de palavras rimadas e de um qualquer sofrimento que havia escrito, minutos antes, num maço de folhas com inúmeras emendas e sublinhados que espalhara pela mesa. Disse-me que escrevia um poema à mãe. Imagino que tenha sido esse mesmo poema. “Ela sofre”, disse-mo nessa tarde. A mãe estava sempre com ele, sempre, “guardo a tua voz dentro de mim”, dizia Eugénio. Mas a mãe não gostava, com toda a certeza, de tanta, tanta coisa que não é explicável. “Mas tu esqueceste muita coisa”, referia ele.
    É provável que tenha sido este, o poema que “quase vi” escrever.
    Um abraço amigo do
    Armando Sousa

    • Invejo-lhe o privilégio, Armando. Eugénio de Andrade foi, para mim, um excelente poeta. Tenho pena de ainda não ter tido a oportunidade de explorar um pouco mais a sua obra.
      Obrigada pela visita e boas leituras!

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