As Flores do Mal

Charles Baudelaire

Desde os primeiros tempos da sua publicação que “As Flores do Mal” de Baudelaire levantaram polémica. Poucos dias após a mesma, o jornal Le Figaro criticou duramente o autor fazendo com que a obra fosse retirada de circulação por ataque aos bons costumes. Para ver “As Flores do Mal” de novo à venda, autor e editor pagaram multa e 6 poemas foram retirados. Originalmente, o livro é composto por 6 capítulos: “Spleen ou Ideal”, “Quadros Citadinos”, “O vinho”, “Revolta”, “A Morte” e “As Flores do Mal”. Esta edição acrescenta mais alguns capítulos: “Novas Flores do Mal”, “Marginália”, “Galanteios”, “Peças Várias” e “Pilhérias”. O poema “Ao leitor”, apresentado logo no início da obra, acaba por exemplificar bem praticamente todas as temáticas pelas quais Baudelaire é famoso: a queda, a expulsão do paraíso, o amor, o erotismo, a morte, a passagem do tempo, o exílio e o tédio.

Quando me decidi a fazer um mês temático sobre poesia, logo coloquei como condição ler algum tipo de grande clássico desse género literário. Pois bem, “As Flores do Mal” encaixa-se perfeitamente nessa categoria. Das varias referencias que já tinha lido, eu sabia que uma das imagens de marca do escritor era um tom muito pessimista. Pois bem, isto é pessimismo levado ao expoente máximo. Uns atrás dos outros, os poemas vão batendo todos na mesma tecla. A dor de viver, o tédio, o desanimo, a destruição, a morte, a inevitabilidade do fim, o desapego para com a realidade, a rebeldia perante a religião e consequentes referencias constantes a Satanás. Esta ultima temática tem como exemplo flagrante o poema “Oração”, onde é feita uma glorificação ao símbolo máximo do espírito maligno. E tudo isto, para quem não está bem dentro do espírito acaba por ser cansativo. Atenção, não quero com isso dizer que o livro é mau. O homem é um génio e isso vê-se em cada poema. Simplesmente nem todas as pessoas gostam de livros com uma linguagem tão sombria, forte e até mesmo violenta. Felizmente, e mesmo que sendo por apenas 3 poemas, existe um raio de boa disposição no meio de tanto negrume em “Pilhérias”. Um facto curioso que encontrei foi o facto de, no espaço de poucas páginas, existirem 3 poemas dedicados aos gatos. Fico a questionar-me se isso se deverá a idolatração aos nossos amigos felinos, mero apreço pelo animal ou apenas pura inveja pelo seu porte majestoso e pelo seu ritmo simples de viver. Concluindo, estamos perante um génio depressivo que deverá apenas ser lido por quem tenha a bagagem emocional para o fazer.

Classificação: 3/5

A Música

A música p’ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d’um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D’um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh’alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

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