Terças Traduzidas #9

Tradução como traição

Na relação entre o Velho e o Novo Mundo, os problemas da tradução naturalmente representam uma questão central. Hermán Cortés, por exemplo, não merece crédito ao “traduzir” as palavras de Moctezuma em suas Cartas de relación dirigidas a Carlos V, e no fundo se torna um ventríloquo ao botar na boca do representante do Outro uma justificativa de suas próprias intenções.

Um significado ainda mais abrangente é consagrado àquela mulher que foi não apenas a amante, mas sobretudo a intérprete do conquistador espanhol, e apoiou enfaticamente seus planos de conquista. Antes que a enganadora enganada por Cortés se transformasse em figura positiva sobretudo dos esboços identitários femininos, quando seu caráter simbólico foi traduzido aos contextos feministas dos século XX, Malinche foi, por muito tempo, o símbolo da traição à população indígena do Novo Mundo.

Em sua personagem, cuja posição central foi posta em cena em numerosos documentos visuais, a imagem da tradutora vai se concretizando aos poucos e de modo peculiar em imagem de traidora. Sua “traição” dizia menos respeito à tradução do que ao traduzido, que ela traiu diante do homem ao qual se entregou. Malinche é a intérprete, a lengua, a língua no ouvido de Cortés. Pelo menos a lenda tradicional que cresce em torno da personagem de Malinche mostra que a tradução intercultural pode ser compreendida, ela mesmo, como traição ao Próprio.

De um modo geral, os tradutores tiveram, ao longo dos séculos, uma fama antes má que boa. Traduttore, traditore, a todos nos ocorre imediatamente essa fórmula. Malinche, de qualquer modo, parece ter fornecido, com más intenções segundo o ponto de vista dos índios, boas traduções para Cortés. Sem sua traduttrice traditrice, Cortés, o homem frio e calculista do poder, teria tido maiores dificuldades em reconhecer os bloqueios culturalmente condicionados de seus inimigos e subjugar o reino dos Astecas. No Novo Mundo, desde o princípio da conquista europeia a tradução intercultural se encontrava, isso asseguramos de antemão, sob o signo da traição. Foi deduzido corretamente que aqui a compreensão servia à destruição, um nexo que haveria de se repetir ainda várias vezes na história posterior da América.

Ottmar Ette (excerto pertencente ao texto “Com as palavras do outro”, traduzido por Marcelo Backes. Revista Humboldt, Ed. 101 publicada pelo Goethe-Institut)

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