No Frio da Noite

Nelson DeMilleA Costa do Ouro, faixa de terra na margem norte de Long Island, já não é o que era. Se na década de 20 do séc. XX aquele espaço era ocupado pelas grandes famílias abastadas dos Estados Unidos da América, na década de 90 ali só restavam mansões em ruínas, famílias outrora abastadas com dívidas de impostos e enormes propriedades divididas em talhões para construir vivendas familiares ou “barracões de tractores”, como chamam os locais. Exemplo dessa realidade é a família de Susan Stanhope, esposa de uma das personagens principais, John Sutter. Sutter é um prestigiado advogado de Wall Street e especialista em direito fiscal. O casal tem o tipo de vida perfeito: eventos sociais frequentes, associados em countryyatch clubs, frequentadores assíduos da Igreja. No entanto, toda essa rotina pacífica quebra-se quando a Máfia chega a Long Island. Frank “Bispo” Bellarosa, chefe de uma das principais famílias mafiosas de Nova Iorque, muda-se para a mansão “Alhambra”, ficando assim vizinho dos Sutter. Essa indesejável vizinhança acaba por arrastar o casal para o perigoso sub-mundo do crime organizado.

No prefácio ao livro, Nelson DeMille apresenta aos leitores uma frase que por si só consegue explicar o enredo do livro: “O Padrinho vai ao encontro d’ O Grande Gatsby na Costa do Ouro.”. Pois bem, aquilo que no início me pareceu uma premissa interessante acabou por me deixar com vontade de ler o primeiro e reler o segundo. Mas falando do livro em si, esta é uma história interessante que explora uma faixa da sociedade ainda muito presa ao passado, agarrada às marcas, aos convénios sociais e às aparências de uma década de ouro há muito esgotada. Apesar de pouco detalhada, acaba por ser também uma viagem ao mundo obscuro da Máfia italiana, os seus hábitos, os códigos de honra, etc. A primeira parte do livro está recheada de descrições de casas e de costumes sociais, o que para alguns leitores pode ser um valente tédio. Com o desenrolar do enredo, a acção continua a avançar de modo lento já que o autor insiste em perder-se em explicações e descrições. No caso da minha edição em particular, a formatação do texto também não ajuda já que na minha frente está um bloco maciço de texto num tipo de letra minúsculo. Felizmente, o autor contraria essa tendência de lentidão com um estilo de escrita bem humorado e recheado de críticas mordazes à sociedade de aparências destas famílias da velha aristocracia americana. DeMille perde também alguns pontos nas cenas de sexo que vai espalhando pelo enredo uma vez que algumas chegam a roçar ligeiramente a vulgaridade. No que toca a versão portuguesa do texto, a tradução feita por Lídia Geer está muito bem conseguida com notas de tradução em momentos pertinentes, como a explicação de termos culturalmente específicos, apesar de ter detectado pequenas falhas como dualidade nos critérios de tradução ou uma fluência de discurso pouco natural. Existem também alguns erros de revisão mas não são muito graves, apenas trocas ou acrescento/ausência de letras. Resumindo, este é um livro que do ponto de vista histórico é interessante mas que do ponto de vista do enredo podia ser melhor.

Classificação: 3/5

” Por vezes é impossível não nos perguntarmos como pôde uma nação fabulosamente rica ter criado condições para a existência de uma subclasse de gente branca, ou talvez isso se deva exclusivamente ao facto de haver indivíduos que são falhados desde a nascença, pelo que no próximo século haverá uma colónia de humanos em Marte que tratará de arranjar um bar como aquele, cuja clientela terá dentes estragados, tatuagens e fatos espaciais de couro e se entreterá a contar uns aos outros a história da sua vida e queixando-se da pouca sorte que lhes bateu à porta e das pessoas que os lixaram.”

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