O Último Cabalista de Lisboa

No início do séc. XVI, o fantasma da Inquisição já pairava sobre as cabeças da Espanha chefiada pelos Reis Católicos, D. Fernando e D. Isabel. Depressa o rei português, D. Manuel I, é impelido a fazer o mesmo e abrir as portas aos inquisidores. Para o evitar, ordena uma conversão forçada em massa de toda a população judaica. É num período de desconfianças, seca e peste que surgem as personagens principais deste enredo. Mestre Abraão Zarco é um ancião cabalista, homem sábio e iluminado. Berequias Zarco é o seu sobrinho e discípulo, um jovem com um enorme talento para o desenho. Vivia-se o mês de Abril de 1506, numa altura em que os cristão-novos celebravam a Páscoa judaica na clandestinidade, quando os frades Dominicanos instigaram a população contra eles, acusando-os de serem os causadores da seca e da peste. Durante vários dias, as fogueiras do Rossio foram alimentadas com milhares de corpos de judeus. Homens, mulheres, crianças, velhos, gente saudável e gente doente. Poucos escaparam à fúria da multidão que corria todas as ruas à caça de “marranos”. Mestre Abraão também não escapou, assassinado na cave secreta da sua própria casa. É então que Berequias toma como missão descobrir quem levou o seu amado tio da Esfera Terrestre.

Já tinha lido opiniões de outras pessoas em que se dizia que os livros de Richard Zimler eram historicamente perfeitos ou então muito próximo disso. Livros com uma componente histórica e onde se retratam culturas que me são desconhecidas chamam-me sempre a atenção. Foi nessa base que adquiri esta obra em particular e devo dizer-vos que foi dinheiro muito bem gasto. Todos os elementos históricos estão bem contextualizados, bem como todos os elementos da cultura judaica. Usando de explicações mais detalhadas ou mais breves, Zimler traz ao conhecimento dos seus leitores rituais como os da Páscoa judaica, o exorcismo ou os rituais funerários. Outro dos pontos que prende também na leitura são os momentos descritivos. Muitos não são fáceis de digerir, estaria a mentir se dissesse o contrário. As imagens das fogueiras ou das torturas aos cristãos-novos são de uma violência impressionante. Os restantes dão aos leitores um retrato bastante fiel do que era a cidade de Lisboa no início do séc. XVI. Mas devo também referir que não é só pelas descrições que a leitura desta obra se torna pesada no inicio. A presença de muitas expressões culturalmente específicas à religião judaica obriga a uma constante consulta do glossário no início do livro. Para terminar, devo referir um ponto que me agradou um pouco menos. A partir de um certo ponto, todo o ódio e obsessão de Berequias para encontrar o assassino do tio começa a ser cansativo. Concluindo, este é um daqueles livros que eu recomendo sem reserva nenhuma. Perfeito para quem é apreciador de Romances Históricos.

Classificação: 5/5

“Alguém pode imaginar o que significa ver uma criança decapitada sentada numa pá? É como se todas as línguas do mundo ficassem esquecidas, como se todos os livros escritos se tivessem reduzido a pó. E como se alguém pudesse ficar feliz com tal coisa. Por pessoas como nós não terem direito a falar, escrever, ou a deixar qualquer traço na História.”

 

4 pensamentos sobre “O Último Cabalista de Lisboa

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