Quando Lisboa Tremeu

Em 1755, vivia-se uma típica manhã de Dia de Todos os Santos em Lisboa. As igrejas estavam cheias de fieis para assistir às solenidades do dia. O Rei D. José I tinha levado, inclusive, praticamente toda a corte real consigo para Belém com o mesmo intuito. Até que um violento tremor de terra veio mudar drasticamente a rotina de toda a gente. À destruição e mortandade do abalo juntaram-se um maremoto e inúmeros incêndios que reduziram a escombros uma grande parte da cidade. É neste contexto de morte e destruição que conhecemos os destinos das personagens principais. Todo o enredo é contado pela voz de Santamaria, um pirata que no início dos acontecimentos estava preso na cadeia do Limoeiro. É ele que nos apresenta a Irmã Margarida, uma freira condenada pela Inquisição em auto-de-fé; o Capitão Hugh Gold, um ex-marinheiro dono de uma casa comercial em Lisboa; o rapaz, que temendo pela vida da irmã volta para casa para a ir buscar; e Bernardino, um ajudante de escrivão do rei D. José I que, após o terramoto, passa para os serviços de Sebastião José de Carvalho e Melo. Um relato impressionante daquele que foi um dos episódios mais tenebrosos da nossa História enquanto país.

Sobre o terramoto de 1755 ficou famosa uma frase proferida por Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro conde de Oeiras e marquês de Pombal: “É preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos.” Sebastião José é descrito, neste livro, como um homem frio, incapaz de expressão qualquer tipo de emoção perante a tragédia. A sua principal preocupação era restabelecer a ordem pública, reabastecer e reabilitar a cidade. Com esta visão muito prática que tinha, os confrontos com o padre Malagrida, o confessor do rei, que defendia que todos os cataclismos tinham sido castigo de Deus, eram constantes. O enredo em si está recheado de diversos elementos históricos o que cativou desde logo o meu interesse. Apesar de os pontos de vista narrativos das diversas personagens se cruzarem constantemente, é uma narrativa fácil de seguir. A própria divisão dos capítulos segue a ordem natural dos acontecimentos: Terra (o terramoto), Água (o tsunami), Fogo (os incêndios) e Ar (a acalmia, a resolução). De referir também a parte descritiva da narrativa. Todos os elementos descritivos são carregados de um realismo angustiante, cruel até. A mortandade pelas ruas, a crueldade das pessoas, as imagens de edifícios a arder com pessoas indefesas no interior sem hipótese de escapar, etc. Sobre o final do livro, achei interessante o facto de o autor ter decidido deixa-lo em aberto de modo a manter o suspense sobre o destino do pirata Santamaria. Concluindo, um livro excelente para quem for fã de Romances Históricos ou para quem gostar de História de Portugal. Em ambos os casos, recomendo-o sem qualquer tipo de reserva.

Classificação: 5/5

“Aqueles foram dias terríveis, dias em que perdemos os nossos gestos e os nossos pensamentos mais bondosos; dias em que o imperativo da sobrevivência e a presença constante do sofrimento e da morte nos alteravam, nos faziam praticar atos desagradáveis e até injustos ou criminosos; dias em que as regras se suspenderam e vieram ao de cima as vontade mais primitivas de cada um, o seu lado irracional, os seus medos e as suas raivas; dias em que deixamos de ser humanos e nos tornámos praticamente animais, sem razão ou compaixão, onde tudo o que queríamos era fugir e viver, e para isso faríamos o que fosse preciso, mesmo que horrível.”

2 pensamentos sobre “Quando Lisboa Tremeu

  1. Fiquei mesmo entusiasmada com a tua opinião!🙂
    O último livro que li foi “Isabel I e o seu médico português” de Isabel Machado e também gostei muito, enquanto romance histórico. Assim que terminar a minha opinião publico-a.
    Este de Domingos Amaral já me tinha suscitado alguma curiosidade devido ao período histórico que retrata. Agora fiquei com mais vontade. O pior mesmo são imensos livros que tenho para ler e que não dou conta deles.😉 Mas vai ficar registado para quando surgir oportunidade.
    Bom domingo!

    • Do Domingos Amaral li “Quando Salazar Dormia…”, o ano passado e só tenho elogios a fazer ao autor. O modo como ele conjuga os elementos históricos com o enredo ficcionado que criou é excelente.
      Quanto à tua última leitura, embora não esteja muito por dentro da História Inglesa, vou ficar à espera da tua opinião. Pode ser que o compra em Agosto, na Feira da Póvoa de Varzim🙂

      Bom Domingo!

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