Uma Família Inglesa

Em plena segunda metade do séc. XIX, Júlio Dinis apresenta-nos uma família que habita a ribeirinha cidade do Porto, os Whitestone. Mr. Richard é o chefe de família, um homem que simboliza fielmente a austeridade britânica. Homem de hábitos e já viúvo, é dono de uma casa comercial na Rua dos Ingleses, centro nevrálgico do comércio na cidade. Carlos é o filho mais velho. Um jovem boémio, frequentador assíduo de cafés e de teatros, está completamente desligado dos negócios da família. Jenny é a filha mais nova. Desde a morte da mãe que ocupa o seu lugar no que toca a tudo que está relacionado com o universo doméstico. É ainda uma grande confidente do irmão e uma mediadora entre este e o pai de ambos. Todo o enredo se precipita quando, num baile de Carnaval, Carlos conhece uma misteriosa mascarada que, mais tarde, se vem a revelar ser Cecília, a filha de Manuel Quintino, guarda-livros na casa comercial dos Whitestone.

Volto mais uma vez aos clássicos da nossa literatura e a um autor que estou a gostar muito de conhecer, Júlio Dinis. Num enredo bastante simples, focado essencialmente no contexto do romance e repleto de personagens-tipo, o autor mostra-nos um Porto antigo. Em vários momentos fiz algumas pesquisas, afim de perceber se aqueles lugares que nos são apresentados ainda existem nos dias de hoje. Mais uma vez, a escola realista em que Júlio Dinis se insere está muito presente nas descrições que faz de lugares, de espaços, de divisões, de paisagens, etc. Existem alguns pontos que gostaria de referir. Como ponto negativo aponto a tendência do autor de se perder, a espaços, em dissertações que cansam o leitor. Por vezes, o autor corta essas dissertações a meio para não maçar o leitor mas o mal já está feito. Como ponto mais divertido aponto a referência às “mulheres do soalheiro” e os mexericos de soleira da porta. Uma situação comum em qualquer lugar, desde as grandes cidades até às pequenas aldeias, e que subsiste até aos dias de hoje. Como ponto curioso aponto o facto de Mr. Brains (uma personagem secundária) prever que a língua inglesa se iria universalizar. Apenas falhou na previsão que seria a Inglaterra a dominar o mundo. Concluindo, este é um excelente livro que recomendo a todos quantos apreciam os clássicos nacionais, em geral, e a escola realista, em particular.

Classificação: 5/5

“Há uma parte obscura do nosso mundo interior, sempre inacessa aos olhares estranhos, onde se refugiam esses muitos segredos do eu para o eu, segredos de que nós mesmos nos riríamos, se os lábios ousassem pronunciá-los um dia.”

10 pensamentos sobre “Uma Família Inglesa

  1. Tenho pena de não ter conhecido o café “Águia D’Ouro”, onde se desenrola parte da ação deste livro. A minha mãe conta que era lindíssimo. Mas ainda cheguei, em criança, a ver alguns filmes no cinema contíguo.
    Durante anos, metia dó ver o espaço a cair aos pedaços, ainda que a águia imponente lá se mantivesse, teimosamente…
    O saudoso “Águia D’Ouro” deu, este ano, lugar a um hotel low cost.

  2. A Família Inglesa foi o meu primeiro livro “à séria”, tinha eu dez imberbes anos quando me deleitei com este romance de enorme beleza (e já passaram sessenta). De vez em quando, sempre que a nostalgia ou o “nervoso miudinho” me ataca, leio Júlio Dinis e volto muitas vezes à Familia Inglesa para ler as passagens que mais gosto (aconselho esta terapia aos mais nervosos).
    Os lugares do Porto onde se passa o romance são identificáveis:
    – Cemitério de Cedofeita, é o actual cemitério da Lapa;
    – A capela dos ingleses, no Campo Pequeno, actual Largo da Maternidade e velho Largo dos Ingleses, ainda lá está, intra-muros, juntamente com o cemitério britânico;
    – A casa onde “morava” mr. Richard, seria muito próximo da rua de Cedofeita;
    – A casa de Manuel Quintino, no Campo Alegre, onde se situa, actualmente, a Faculdade de Letras;
    – A rua dos Ingleses é a actual rua do Infante, que termina na “boca” do túnel da Ribeira;
    – O Águia Douro (que cheguei a frequentar), era lugar de conversa de políticos e homens de letras, os primeiros sentavam-se à direita e os homens de letras à esquerda (contou-me a minha avó). Antero de Quental, Camilo, Julio Dinis e Arnaldo Gama sentaram-se, muitas vezes nas suas cadeiras, à conversa.
    Uma curiosidade: Manuel Quintino existiu e era mesmo guarda-livros numa firma inglesa. Julio Dinis não inventou este personagem, mas atribui-lhe a condição de viúvo e com apenas uma filha. Mas era casado, tinha três rapazes e morava no local onde acima refiro (contaram-me familiares meus, contemporâneos deste senhor).

    A obra de Júlio Dinis é uma obrigação lê-la.

    Parabéns, Isabel, do
    Armando Sousa

    • Eu comecei a ler Júlio Dinis há 2 anos e agora, sempre que posso, volto à sua obra. Alguns dos lugares consegui perceber onde eram (a rua dos Ingleses e o Águia D’Ouro, por exemplo) apenas pelas descrições. Outros tive que pesquisar para perceber onde seriam. Agradeço-lhe, por isso, as indicações, Armando. Fiquei melhor situada.

      Boas leituras 🙂

  3. Júlio Dinis já quase não se lê. A culpa é também dos editores, esquecem (talvez não saibam) que este pequeno país é rico em escritores. Também culpo a ESCOLA, o ensino da literatura em geral, nos diversos ensinos. Lêr Júlio Dinis não é um “acto menor”, é lêr este país, é lêr as suas raízes, é conhecer o barro de que somos feitos. Que ninguém se envergonhe dessa leitura e só tenho que endereçar os parabéns a quem se inicia nesta obra e neste autor.
    Um abraço a todos
    Armando Sousa

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