Nineteen Eighty-Four

Londres, 1984. Para onde quer que se olhasse, a figura imponente e algo temível do Big Brother parece seguir cada um com os olhos. Por todo o lado pode-se ler também o lema do Partido: “Guerra é paz / Liberdade é escravidão / Ignorância é força.” É num regime onde tudo é controlado ao milímetro que vive o personagem principal, Winston Smith. Smith é um funcionário insuspeito e apagado do Ministério da Verdade que tinha como função re-escrever artigos do jornal The Times para que estes ficassem sempre em consonância com as directivas do Partido. Um Partido que defendia o Ingsoc (socialismo inglês), que idolatrava o Big Brother e repudiava Goldstein e que punia duramente crimes de pensamento. Porém, Smith começa a sentir-se sufocado com tanta repressão e apatia geral e para extravasar esses sentimentos compra um caderno e uma caneta, artigos de venda proibida. A partir do momento em que escreve nesse bloco “ABAIXO O BIG BROTHER!”, Smith entra numa espiral de acontecimentos que o leva ao Ministério do Amor e ao temido Quarto 101.
Este ano senti necessidade de voltar a ler nas línguas da minha formação académica, o Inglês e o Francês. Por isso, e para começar, nada melhor do que o desafio de um clássico. Praticamente toda a gente, mesmo aqueles que nunca puseram os olhos em cima desta obra de Orwell, reconhecem a ideia que está subjacente no conceito do Big Brother. Uma entidade que controla tudo e que tem toda a gente sob vigilância permanentemente. Ao longo da leitura não pude deixar de fazer um certo paralelismo com a nossa História enquanto país. Tivemos uma figura que idolatramos (Oliveira Salazar), uma Polícia do Pensamento (a PIDE) e tivemos inclusive um Quarto 101 (o Tarrafal ou qualquer umas das outras prisões para onde eram enviados presos políticos). Mas mesmo olhando para os dias de hoje, conseguimos facilmente encontrar exemplos de coisas associadas a esta ideia de Big Brother: os sistemas de vigilância, os rigorosos controlos de seguranças implementados depois dos vários ataques terroristas, as bases de dados com informações vitais de cada cidadão partilhadas por variadíssimas instituições públicas, etc. No que toca à escrita em si, achei que poderia ter alguma dificuldade em acompanhar o enredo resultante da falta de uso do idioma em que está escrita a obra. Felizmente isso não se verificou visto que o vocabulário é bastante acessível e fluído. No entanto, existiram alguns pontos que levantaram algumas dificuldades. Um deles foi os excertos de texto escritos em Newspeak (Novilíngua), já que não estava ainda muito familiarizada com o conceito. O outro foi a torrente de informação que o autor apresentava a espaços ao leitor. Em certos momentos torna-se cansativo assimilar tudo o que é apresentado. Mas, de um modo geral, é um excelente livro que nos faz valorizar as liberdades de que por enquanto ainda gozamos.
Classificação: 4/5
“Even from the coin the eyes porsued you. On coins, on stamps, on the covers of books, on banners, on posters and on the wrapping of a cigarette packet – everywhere. Always the eyes watching you and the voice enveloping you. Asleep or awake, working or eating, indoors or out of doors, in the bath or in bed – no escape. Nothing was your own except the few cubic centimetres inside your skull.”

9 pensamentos sobre “Nineteen Eighty-Four

  1. É amiga, nossos gostos são bem diferentes viu! Você gosta de livros que envolvam história né? Eu já sei que livro te dar, de uma autora nacional mas preciso juntar uma graninha antes… não esqueci de você viu!

    Big Brother? Do programa ou é outro e estou fazendo confusão e viajando na maionese??😡

    Beijos!

  2. Li este livro já faz bastantes anos. Incomoda, a nós portugueses, concluir que já passámos por situações idênticas. O paralelismo que a Isabel faz com a nossa história é inteligente. Ainda é um livro actual, mas “pesado” como chumbo.

    • O paralelismo que fiz é quase impossível de não se fazer. Todas aquelas condicionantes, tão semelhante ao nosso Estado Novo, que Orwell nos apresenta saltam demasiado à vista para serem ignoradas.

  3. Mas ainda há quem ignore esse tempo negro, há quem não conheça as atrocidades da polícia política, há quem não acredite na censura e quem ainda invoque o nome de Salazar, por tudo e por nada. Não foi este ditador a mais votada figura no nosso país?

    • Um povo que ignora a sua História é um povo que desdenha das suas raízes. Conhecê-la deve servir não só para tirar lições dela, mas também para que se evite a todo o custo que se volte a repetir. As gerações mais jovens tomam todas as liberdades de que gozam como garantidas, esquecendo-se da luta e do sacrifício levado a cabo pela geração dos pais e dos avós.

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