Uma conversa com… Casimiro Teixeira

O Na Companhia dos Livros inaugura hoje um novo espaço dedicado a entrevistas.
O meu primeiro convidado é um simpático conterrâneo meu, o Casimiro Teixeira. É um autor multi-facetado que se estreou recentemente no mundo dos romances com a obra Governo Sombra, livro esse que vai ser apresentado no dia 26 do presente mês de Fevereiro na FNAC do CC Palácio do Gelo, em Viseu.
Na Companhia dos Livros (NCDL) – A primeira pergunta que se impõe, no sentido de os leitores te conhecerem, é, resumidamente, quem é o Casimiro Teixeira?
Casimiro Teixeira (CT) – O Casimiro Teixeira é um rapazinho em ponto grande que fez 40 anos este mês, e que adora Vila do Conde. Sou de Vila do Conde, e adoro-a. Adoro também o prazer que a escrita me dá. A forma como me faz descobrir novas formas de encarar a vida, novos mundos, que provavelmente só os conseguiria descobrir através de experiências de vida, que não tenho, pois praticamente nunca saí daqui. Então, descobri que na escrita posso fazer isso. Posso colocar-me a morar na Austrália e descrever as coisas que por lá se passam sem nunca lá ter estado. No fundo, sou um sonhador. Sonho com outros mundos, com outras paragens. Uso a escrita para isso, para chegar lá, para viajar. E espero que as pessoas consigam viajar comigo também, que consiga fazê-las viajar através daquilo que escrevo.
NCDL – A escrita surgiu como um hobby recente ou é algo que já vem de trás?

CT – Sim, vem de longe. Vem da minha juventude, da escola secundária. Tive a sorte de ter dois professores de Português que realmente gostavam de ensinar a nossa língua e fizeram-me acreditar no que deveria ser óbvio, que a Língua Portuguesa é riquíssima e que merece ser bem estudada e bem trabalhada. Foram eles que criaram em mim a paixão de trabalhar a língua, de escrevê-la. Davam-me trabalhos de casa que nem eram oficiais, não contavam para nota. Do género: “Escreve um mini-conto sobre isto ou sobre aquilo” e eu escrevia. E foi aí que comecei a ver que gostava de escrever, e que a escrita não era nenhuma seca, tipo Matemática. (risos…) A partir daí, comecei a escrever poemas, sem nunca publicar nada. Na altura saíram dois textos meus numa revista que havia lá na [Escola Secundária] José Régio, de Filosofia, e que também contribuíram muito para me fazerem crescer o bichinho. Depois, a vida deu muitas voltas. Tinha para lá de dois gavetões cheios de papelada. Seis ou sete contos, dois romances, poemas, tantos poemas que nem conseguia fechar a gaveta de tantos que eram. Por fim chegamos a 2011, fiquei desempregado, e comecei a achar que seria uma boa altura para tirar toda aquela papelada da gaveta.

NCDL – O que te fascina neste modo de expressão que é a escrita?

CT – Fascina-me a hipótese de poder falar com muitas pessoas ao mesmo tempo, como se tivesse um auditório cheio de gente para as quais falar, dizer aquilo que eu penso, a minha forma de ver o mundo sem ter que estar lá presente. Suponho que a escrita é sobretudo uma entrega do autor para o leitor, como qualquer outra forma artística o é. Ninguém de certeza que pretenda prosseguir qualquer objectivo nas artes, seja na literatura, na música, na pintura, faz as coisas para as guardar para si. A escrita serve para mim um pouco esse propósito. Eu sinto necessidade de explicar a minha forma de ver as coisas e crio histórias sobre isso. Vai depender depois de quem as lê, achar se são verosímeis, interessantes, ou, de outro modo, que este tipo é completamente maluco, porque anda a criar histórias idiotas nos livros que escreve. O leitor tem sempre a última palavra, sempre. São eles quem decidem se de facto os toco de alguma forma, e até se os faço compreender aspectos pessoais que originem um próprio reflexo naquilo que eu escrevo. Fundamentalmente é essa a função essencial da escrita para mim. Não é original, mas é sincera. É mesmo isso que eu pretendo. Que do outro lado exista uma aceitação, ou quanto muito, uma compreensão da forma como tentei explicar o mundo. Se conseguir fazer isso numa só pessoa, já fico muito feliz.

NCDL – No teu blog (O Mundo de acordo com Miro!) mostras vários tipos de trabalho realizado, nomeadamente na área da poesia, do conto, da novela e mais recentemente no romance com o “Governo Sombra”. Em qual dessas áreas te sentes mais confortável a escrever?

CT – Apesar de algumas pessoas me dizerem, em comentários, que devia deixar a prosa para trás e concentrar-me na poesia (porque pelos vistos tenho mais jeito para isso, não sei se é verdade), o que gosto mesmo é de escrever prosa. Acredito que a poesia também é uma forma de contar uma história. Um poema tem uma história para contar, apenas fá-lo de uma forma mais condensada, muito mais estritamente adensada, em palavras que são estudadas ao pormenor para reforçar a ideia, por isso se revela quase sempre muito mais subjectivo. Qualquer pessoa que leia um poema tira a sua própria interpretação. Dificilmente duas pessoas que leiam o mesmo poema o interpretarão da mesma maneira. Eu gosto de escrever poesia também, mas sinto-me mais livre na prosa. A poesia é castradora. Se quisermos explicar uma ideia através de um texto, dói muito mais fazê-lo através da poesia do que da prosa. A prosa deixa-nos sempre espaço para seguirmos um caminho muito mais concreto, mais objectivo, que à partida será mais identificável por parte do leitor, e isso faz-me sentir mais confortável. Na poesia, por vezes sente-se uma luta tremenda para chegar a um ponto fulcral. Nem sempre se consegue atingir aquela palavra chave, aquela expressão chave que nos permite explanar a ideia que queremos transmitir no poema. Mas a prosa não é fácil também, escrever não é fácil. Que ninguém diga que escrever é fácil, pois nesse caso não deve estar a fazer a coisa direita. Sinto-me sim mais confortável a escrever um conto, logo, também já de si sintético e como tal, mais próximo da poesia, mas, o que me dá grande prazer, são as longas narrativas estruturadas, um romance. Poder pegar nas personagens, fazê-las viajar nos cenários que crio, pô-las em contacto com outras personagens, e deixar que tudo evolua numa espiral incontrolável, onde, a dada altura, nós próprios estamos dentro do livro. E então temos que pegar na história e perguntar-lhe para onde é que ela está a ir e tentar agarra-la para depois no fim sair algo minimamente coerente. Também é um dever do autor, se pretende contar essa história, mete-la cá fora e apresenta-la ao publico da maneira mais coerente e interessante possível. Eu quero que haja confiança por parte do leitor, que este de facto acredite que o autor merece confiança, porque contou uma história de interesse, de valor. Esse é igualmente o meu objectivo. Tentar melhorar sempre e fazer com que os leitores fiquem satisfeitos com a história que lhes apresento.

NCDL – Como tu dizias, no blog a maior parte do trabalho que lá tens é poesia. Quais são os poetas que tens como referência ou quais são os poetas que mais aprecias?

CT – São tantos. Gosto muito dos americanos como o Walt Whitman, o William Blake, Robert Frost, Emerson, Thoreau, mas, adoro Neruda também. Tenho uma fraqueza estranha por tudo o que vem da América do Sul, tanto na prosa como na poesia. Têm uma forma musical de escrever. Infelizmente, a poesia no nosso país, nação com tão grandes poetas, continua a ser o parente pobre da literatura. Há tantos livros de poesia a sair e nunca têm a relevância ou divulgação que merecem. O que é triste. Em tantos séculos de bons poetas a nascer neste país, como é que ainda não ficou bem vincado nas pessoas a alegria e o prazer de ler um poema de um autor português? É claro que tenho também os meus favoritos entre os nossos grandes: José Régio, Eugénio de Andrade, Al Berto, Pessoa, Florbela Espanca, Alexandre O’Neil, mas o meu favorito entre todos é o Cesário. Sou apaixonado por Cesário Verde.

NCDL – Onde é que vais encontrar inspiração para escrever os teus poemas? Nesta nossa bela cidade que é Vila do Conde, em coisas que vão acontecendo no teu dia-a-dia, momentos da tua vida?

CT – Sim. Em todas as histórias que escrevi, pelo menos naquelas que já editei, a acção ou parte desta passa-se ocorre em Vila do Conde. Adoro esta terra e tem tanto para oferecer. Não consigo nem quero me descolar deste espaço. Quando se vive num lugar tão maravilhoso assim, para quê sair e colocar a acção em outro lado qualquer? Auto-publiquei agora uma novela, chamada “Corre!”, cuja acção decorre quase exclusivamente neste espaço entre a Capela de N. Sra. Da Guia e o Casino da Póvoa. Em tão curta distância pode-se dizer tanta coisa, e não falo só de descrições. Pode-se criar um enredo e desenvolve-lo de uma forma interessante e bem estruturada sem sequer sair deste pequeno lugar. E é-me impossível sair, porque realmente adoro isto. Apesar de saber bem que, se quiser almejar a ter alguma desenvoltura e consistência de carreira, terei mesmo de o fazer, pois tudo acontece sempre noutro lugar. Infelizmente, estar aqui em Vila do Conde não me levará a lado algum. Só que, por enquanto, e como não tenho pretensões imediatas de fama e sucesso, recuso-me a fazê-lo. Para já continuo aqui. Não há melhor! Podes perguntar a qualquer pessoa, mesmo não sendo vila-condense, vão-te dizer a mesma coisa.

NCDL – Passando para o “Governo Sombra”. De onde é que surgiu a ideia para este livro?

CT – Surgiu do facto de eu estar desempregado e daí fui extrapolando. Nunca fui muito de dar atenção às notícias, sempre me desliguei de algum interesse por política como de tudo o resto. No entanto, em finais de 2010, início de 2011, talvez por estar desempregado, comecei a prestar atenção à realidade onde eu próprio estava inserido. E chamou-me a atenção muitas coisas que ouvia nas notícias, tomava-lhes conta, por pensar que, não soavam inteiramente aquilo que eu pressentia que realmente eram. É verdade que tivemos e continuamos a ter, infelizmente, uma classe política que é uma nulidade, que não trabalha para o propósito para que deviam. Mas também, a meu ver, é verdade que esses mesmo políticos são eles próprios serventes de um poder que lhes está muito acima. E quiçá mais infeliz ainda, não têm a hombridade de se erguerem desse axioma de estarem sempre a serem paus mandados e com isso, acabam levar o país junto pela encosta abaixo. E foi mais ou menos essa ideia que me andou para aqui a tamborilar. Então comecei a investigar, a ler umas coisas, a ver uns documentários, a criar cá dentro a teia das conspirações. Mas depois pensei, se vou enveredar quase exclusivamente por uma narrativa, que seja em rigor, nada mais que uma conspiração, se calhar não vou conseguir dar um tom de seriedade à história em si. Então tentei criar um enredo mais humano, mais focado na figura das duas personagens principais que rodeiam esse tema base da hierarquia do verdadeiro poder. Basicamente, foi essa a premissa da história. As pessoas insistem que o livro é uma história política de conspirações. É uma análise possível. Para mim, continua, e continuará a ser uma história humana de duas pessoas normais, como eu, tu ou qualquer outra pessoa, que se vê emaranhado numa situação estapafúrdia, quase inverosímil, mas que pode muito bem ser possível. Eu acredito que sim, que é possível e continua a ser. Eu não diria que algumas hipóteses que lá estão formuladas, sejam inteiramente reais, mas possíveis são. A minha intenção também foi fazer as pessoas pensarem nas coisas. No fundo o que eu vejo ao meu redor é apatia. Todos nós temos um poder inerente que é de tentar mudar as coisas. Se continuarmos apáticos, só a reclamar, não será certamente assim que elas irão mudar. Este livro, é um pouco uma forma de dizer aos leitores: “Cautela”. Não quero com isto dizer, que irá ser um qualquer objecto de culto, que mudará a mentalidade de uma geração inteira. Não, não irá. É meramente a minha tentativa de acordar. E, se cada um fizer a sua tentativa, se calhar estaremos todos a contribuir para a construção de uma sociedade melhor, para o despertar colectivo. E eu acho que é precisamente a forma de as pessoas reagirem a estes problemas que faz com que os “soldadinhos” do poder estabelecido, os nossos dirigentes, tomem consciência de que estamos atentos, porque isto não é novidade para ninguém certo? Um Presidente ou um Primeiro Ministro eleitos num país da União Europeia ou do Mundo se não seguirem os ditames que lhes são enviados pelos “Alquimistas”, acabam mal. O que acontece é que, chegado o próximo momento de sufrágio universal, serão de alguma forma excluídos. “Este não serve, vamos pôr lá outro.” – E é importante que todos saibamos disto. De certa maneira foi essa a realidade que eu tentei ilustrar no livro. E quem nos garante que de facto não é mesmo assim?

NCDL – Esta foi uma história cozinhada a lume brando (passe a expressão) ou foi um impulso de escrita? Querias contar esta história porque sim?

CT – Carne viva. Esta história não me retrata em termos do meu estilo de escrita. Eu não escrevo assim. Escrevi-o desta forma porque esta história tinha de ser contada desta maneira, crua e acutilante. Eu gosto é do realismo mágico da literatura sul americana. Gosto daquela música, daquela poesia nas palavras e é assim que eu tento escrever. Dificilmente quem leu o livro ou quem o venha a ler, irá deduzir a forma desse estilo. Pois existem histórias que têm de ser contadas de uma certa maneira. Esta é uma delas. Se eu tentasse musicalizar, poetizar ou tornar esta história mais lírica, se calhar não teria tanto o efeito pretendido. De modo que é esperar para ver o próximo romance. Aí sim será o estilo que eu quero marcar e que espero que venha a ser o estilo pelo qual eu venha a ser conhecido. Ou não! – Mais certamente que não.

NCDL – Para os leitores que ainda não conhecem este “Governo Sombra”, em que é que consiste, resumidamente, o enredo?

CT – Consiste na luta de dois homens completamente dispares um do outro em termos de personalidade e de percurso de vida face a um poder invisível que os tenta desenraizar dos seus objectivos e dos seus percursos. A dada altura têm necessidade de tentar reparar determinadas coisas e fazem por isso. Lutam para que a verdade seja reposta e para que as pessoas fiquem a saber o que se está realmente a passar.

NCDL – Há algo de autobiográfico na origem do Pedro Gonçalves ou o facto de autor e personagem partilharem um “background” semelhante é pura coincidência?

CT – Não é pura coincidência, mas, o que se calhar não é tão óbvio para quem lê é que existe igual percentagem de aspectos autobiográficos no Henrique Lobo também. À partida poderia parecer não ter absolutamente nada a ver comigo mas tem. Tem muito. Aquela forma obstinada, por vezes um pouco desiludida de estar numa situação que não é aquela que ele desejava, mas não querer baixar logo os braços, não desistir de imediato. É uma moeda de duas faces. Porque o Pedro Gonçalves, apesar de à partida ser a minha cara chapada, tem muitos aspectos que não têm absolutamente nada a ver comigo mas sim, por exemplo, com amigos meus, onde fui buscar um nariz aqui, uma ideia ali, uma emoção ou uma perna acolá e juntei tudo, fiz o meu Frankenstein e chamei-lhe Pedro Gonçalves. O facto de ele estar desempregado e querer ser escritor, isso é pura coincidência.

NCDL – Sendo tu ainda um escritor pouco conhecido neste universo gigante que é o mundo literário em Portugal, tiveste alguma dificuldade em encontrar uma editora disposta a publicar o romance?

CT – Não, porque se estivermos dispostos a pagar por isso, elas surgem de trás de cada árvore. A editora que me publicou o livro foi uma dessas. Foi das que logo à partida, mesmo só recebendo uma parte ínfima do manuscrito, disse logo que sim. É natural, é o negócio deles. São, na falta de melhor expressão que as defina: “máquinas de fazer escritores” – O Valter Hugo Mãe que me perdoe o plágio involuntário – ou pseudo-escritores, alguns. Mas, posso dizer que não vou desistir de conseguir trabalhar com uma editora a sério, uma editora consistente, que consiga dar-me o apoio que qualquer autor precisa para progredir. Não é o caso desta. Nunca vou conseguir ir a lado nenhum com a ajuda de uma editora assim.

NCDL – Neste momento estás a viver o momento do nascimento deste projecto ou já estás a trabalhar num novo projecto?

CT -Já estou a meio de um novo romance, que neste momento está, mais ou menos a fervilhar em banho-maria. Cada autor tem de se dividir e dar atenção à parte da criação mas também à parte da divulgação. Não pode descurar isso, e é um pouco o que eu estou a tentar fazer neste momento. Tenho obviamente, muita fé neste livro, no “Governo Sombra”, e tudo farei para conseguir fazê-lo chegar ao maior número de pessoas, de modo a que o possam descobrir. Quando chegar aquele ponto em que começo a sentir que já estou a mais, deixo o livro e ele que siga o seu caminho e concentro-me totalmente no novo projecto que estou a fazer. Isto é uma espécie de rodinha, um carrossel. Embarcamos aqui, damos duas ou três voltas, depois saímos e temos de lá entrar outra vez, mais tarde ou mais cedo. Mas está a ser uma viagem interessante. Neste momento, e pela vasta quantidade de livros que são publicados em Portugal, pela quantidade enorme de pessoas que querem à viva força escrever, que gostam de escrever, que precisam de escrever, como eu, o panorama assemelha-se a uma selva. Existem feras por aqui, leões e muitos canibais atirados ali para o meio. É necessária muita cautela e atenção para se ir navegando nestes caminhos perigosos. É verdade mas não podemos ficar parados, porque se o fizermos, o caminho nunca se faz e não chegamos a lado nenhum. Eu tenho tido as minhas desilusões mas também tenho tido muitas alegrias. O balanço para já, é positivo. Tenho tido muito boas opiniões sobre o livro e isso é fundamental. Dá-me alento para continuar a apostar neste e para manter a chama desta paixão acesa. Sinto-me feliz nesse aspecto, realizado mesmo. É uma parte importante do trabalho. Um amigo disse-me uma vez: “O trabalho de um artista é metade inspiração, metade transpiração”. Eu neste momento estou nas duas metades. Estou a trabalhar na inspiração no romance novo, e estou a transpirar muito com este. E a transpiração é isto. É estar aqui a falar contigo, é fazer apresentações do livro, é divulga-lo da melhor maneira possível. Fazê-lo chegar aos olhos dos leitores. Não tenho nem um agente literário, nem sequer uma editora a sério que me apoie. E isto exige muito trabalho da minha parte, mas é um trabalho que faço de bom grado. É o meu trabalho. Se há razão fundamental para alguém se sentir feliz é fazer aquilo de que gosta. Mesmo que não obtenha os benefícios que gostaria de obter, pelo menos está a fazer aquilo que mais prazer lhe dá. Não há pessoa mais feliz do que essa. Quantos são aqueles que podem dizer: “Ah, lá vou eu ter que acordar para ir trabalhar. Que bom…” Eu, por acaso não acordo para trabalhar, mas quase adormeço no fim do trabalho porque escrevo sempre de noite. E é sempre um prazer esperar que a casa fique silenciosa, que os miúdos, a mulher e o gato se deitem a dormir, para me sentar à secretária e começar a trabalhar. É o momento alto do meu dia. Se conseguir ter sucesso com isso, então serei feliz. Se tu estiveres a fazer algo que tens prazer em fazer, de certeza que vais fazê-lo melhor. Isso é óbvio! Se estás a trabalhar naquele ambiente maçador onde tens que fazer aquilo por necessidade, o que acontece com a maioria das pessoas, nunca dás o teu melhor. Infelizmente deverias dar porque é a única maneira que tens de progredires e avançares.

NCDL – Normalmente, por trás de um escritor, costuma estar um leitor ávido. Presumo que no teu caso também seja essa a realidade. Qual o género literário com que mais te identificas, sendo leitor?

CT – Voltamos à América do Sul, a esses meus amigos. O García Márquez, o Rubem Fonseca, o Jorge Amado, o Mario Vargas Llosa, a Isabel Allende… Adoro essa gente toda. É como ouvir um brasileiro a falar. Ele fala a mesma língua que nós, mas encanta-nos quando o faz. Eles têm uma forma muito própria de dar a volta ao texto, fazerem-nos soltar emoções de tal maneira, que ficamos quase a navegar nas nuvens e às vezes em pequenas descrições de situações caricatas, insignificantes ou mesmo tristes. Mas em todas elas, conseguem apanhar aquilo de tal maneira que é impossível ficar-lhes indiferente. E são pessoas, quase todas elas, que tiveram percursos de vida muito difíceis, muito problemáticos. No caso em particular da Isabel Allende, ela é fruto da classe média-alta mas foi escorraçada do seu próprio país, o país que ela tanto ama por causa do pai que foi assassinado pela ditadura. Resultado: Ninguém escreve melhor sobre o Chile do que ela. E eu acho que também essas experiências enriquecem imenso a escrita desses autores porque a própria cultura que os envolve é riquíssima nesses eventos, e não falo de situações que aconteceram há cinco séculos atrás, ainda estão a acontecer em alguns países. Então, torna-se impossível a um escritor que esteja inserido nesses meios, não encontrar ali aquela inspiração necessária para nos encantar com as histórias que eles criam. Podiam ser maçadores… Bem sei, mas invariavelmente não o são. Há sempre uma fórmula para tudo. Eu não estou a dizer que a tenho mas pelo menos percebo-a e sei que ela existe. E é preciso tomar conta de que nem sempre ser demasiado populista como no caso da massificação das histórias que envolvem vampiros, é a fórmula certa. Porém, depois há também o reverso da medalha. Pois que também existem autores, que querendo de tal maneira ser originais comprometem os limites do que realmente pode ser considerado boa literatura, a meu ver. Isto é uma situação típica de dois pesos e duas medidas. Há aqueles que vendem muito e que são aclamados por todos e há aqueles autores que até nem vendem muito mas a crítica eleva-os como deuses e acabam por se tornar figuras incontornáveis dentro do mundo literário. O Saramago é talvez o exemplo máximo do que acabei de dizer. Um outro autor assim cá em Portugal, é o Gonçalo M. Tavares. Àquele homem é impossível fazer algo errado, porque tudo o que ele escreve vai ser sempre conotado como excelente literatura. Por outro lado, temos autores/jornalistas, como é o caso do Miguel de Sousa Tavares, que até o acho uma pessoa abominável, mas que gosto muito de o ler e, se formos a ver, os críticos não o suportam, acham que aquilo nem literatura é, de igual forma rotulam o José Rodrigues dos Santos. E ambos são dos que mais vendem, tanto dentro de portas, como lá por fora. Agora, onde é que está aqui a solução, onde é que está a fórmula certa? Teremos de agradar aos leitores ou aos críticos? Ou a ambos? Ambos, será um bocado difícil, mas há quem o consiga. O Valter está a conseguir fazer isso, por isso está a fazer um grande sucesso. Primeiro conseguiu ser levado aos ombros pelos grandes críticos. Mas, também conseguiu muito bem, e em grande parte por ser um bom comunicador, cativar o público, e assim, tornou-se outro que tal. Qualquer coisa que faça…

NCDL – Há pouco já me estavas a dizer mais ou menos o conteúdo da minha próxima pergunta. Escritor ou escritores preferidos? E em que medida o trabalho desse escritor influencia o teu próprio trabalho?

CT – O meu escritor preferido é o Gabriel García Márquez. No meu processo de escrita, eu organizo-me um pouco como uma criança. Pego num quadro e começo a colar papelinhos nesse quadro. Aí vou escrevendo nomes, sítios, estruturando a história. Vou fazendo setas para ligar uns aos outros e entretanto, leio e releio alguns livros que me trazem a lembrança da viagem que fiz na altura que os li. Alguma determinada circunstância que eu pretendo descrever agora. Não se trata de plágio, não copio frases desses livros, apenas me inspiram por aproximação. Tenho que os revisitar vezes sem conta para ir refrescando as emoções que na altura em que li o livro senti, e tentar descrevê-las à minha maneira. E a influencia que tem esses autores que eu tanto prezo, limita-se a mera inspiração, aquilo que eu li e gostei, fez-me viajar, e da mesma forma, agora, tento fazer transmitir essa viagem aos meus leitores, na minha própria perspectiva. Logo, faço questão de voltar a esses lugares que me trouxeram essas paixões e relembra-las. Só isso! Os “Cem Anos de Solidão” por exemplo, já o li umas sete vezes, de fio a pavio. As páginas até já fogem soltas da lombada, porque eu estou sempre a folheá-lo, a tirar notas. É isso que eu almejo. A inspiração também vem daí, de querer ser melhor, de querer escrever melhor e de ir beber essas influencias aos autores que de facto são óptimos, excelentes. Há tantos bons livros para ler, porque é que haveríamos de perder tempo com os maus? Eu nunca vou conseguir ler todos os livros que tenho em casa, muito menos os que ainda vou comprar até ao fim da minha vida. O meu intuito é nunca me sentar, mesmo que algum dia venha a ter sucesso, à sombra desse sucesso e escrever dentro daquela fórmula. “Ah, se eu obtive sucesso a escrever assim, deixa-me escrever sempre assim porque sei que desta maneira vou ganhar”. Eu quero explorar outras avenidas. O “Governo Sombra”, por exemplo, é um livro mais negro, mais cru, mas, aquele que estou a escrever neste momento, é uma história de amor muito triste, quase trágica, e, ainda assim, cheia de situações muito divertidas, que ainda não estão escritas, mas que já se desenham nos papelinhos pendurados, à espera de o ser. Algumas das personagens secundárias são cheias, carregadas de interesse… isso é que é fundamental. Essa vontade de quereres ir para casa porque neste momento em particular te lembraste de algo perfeito para adicionar a fulano de tal na história que estás a escrever, isso acontece com a rotina, mas depois é preciso muito trabalho, muito trabalho. Ás vezes são pequenas coisas. Por exemplo, eu posso estar aqui a falar contigo e certas atitudes ou maneirismos que eu veja em ti podem-me inspirar algo que ache perfeito para encaixar nalguma personagem. E é um pouco assim. É preciso ter paixão por isto. É preciso ter um ritmo regrado. Se tu adoptares a escrita como actividade principal, tens que levar aquilo a sério. “Hoje não me apetece…”, não funciona. É por isso que eu faço um planeamento anterior para depois ter uma base para começar todos os dias. E depois começo, apago, prossigo, volto atrás…. mas tenho sempre qualquer coisa. Eu acho que isso da inspiração espontânea é treta. Comigo não funciona assim. Não existe o “Vou-me sentar ao computador e escrever uma história.” Isso é um fingimento. E como dizia o Pessoa: “O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente.” A inspiração só vale consoante o trabalho que a sustenta. Estrutura e regra. Um dos meus autores favoritos, que por acaso não é sul-americano mas que eu adoro na mesma, é o Hemingway. Aquele homem escrevia todos os dias desde as seis da manhã até ao meio dia e depois de tarde ia matar ursos, tourear e fazer amor, mas todos os dias naquele período indefectível, ele escrevia. Isso sim inspira-me. Inspira-me a seguir esse modelo, essa forma de trabalhar, porque acho que é a mais correcta. É preciso ter disciplina na forma como trabalhas e é isso que eu faço. Todos os dias escrevo desde a meia noite até às cinco da manhã, outras vezes faço directas, outras vezes só trabalho uma hora porque as coisas não estão a sair bem. Mas trabalho sempre todos os dias porque gosto de trabalhar e isso é que é fundamental. Quando se trabalha por gosto, não se trabalha de facto, vive-se.

NCDL – Livro ou livros que merecem um lugar de destaque no teu gosto pessoal enquanto leitor?

CT – “Cem Anos de Solidão”, “O Velho e o Mar” e um livro que acho fascinante da Isabel Allende que são “Os Novos Contos de Eva Luna”. Gostei de “Eva Luna” mas adorei os “Novos Contos”. Esses três livros estão lá juntinhos. São os únicos que eu limpo o pó. Os outros estão lá tipo garrafas de Vinho do Porto, a envelhecer e a ganhar maturidade. Esses não, esses tenho que os manter limpinhos porque são os que ando sempre a folhear e a ver. Alguns até saem as páginas e tudo. Para mim são fundamentais. Mas eu consigo atirar-me de tal maneira a ler “A República” de Platão como a ler um livro que comprei há pouco que é uma versão moderna do “Tristão e Isolda”. Eu ando sempre com pelo menos quatro livros em contínua leitura. Na minha sala tenho livros no chão, tenho livros na mesinha de cabeceira, na minha secretária, de poesia sobretudo, que de vez em quando vou lá refrescar… É maravilhoso tudo isso. É mesmo um prazer e ler devia ser um prazer para toda a gente, porque somos sempre enriquecidos com as experiências dos outros e quem for mais retraído ou tímido como eu (risos…) ou que tenha dificuldade em estabelecer novas relações, ler é como ter uma porrada de amigos constantemente ali à tua volta. Mas é verdade… É essa a função primordial da literatura. Enriquecer-nos. Isso já me aconteceu. Ao descobrir as experiências dos outros, acabo por concluir que passei ao lado de experiências que podia ter feito, e que não fiz, porque não tive coragem de prosseguir aquele percurso que aquela personagem fez. E outras vezes ocorre o oposto. Exclamo sozinho: “Eu já fiz isto. Já me aconteceu!”. E isso é maravilhoso. Nem que tenha que usar uns óculos tipo fundo de garrafa até ser velhinho, enquanto houver livros lá em casa, sou feliz. Gosto muito de andar a escarafunchar em alfarrabistas e tenho lá duas prateleiras na estante só com livros daqueles que já estão amarelos. Alguns, não devem ser tão velhos como isso mas já devem ter passado por muito. Tenho-os lá guardadinhos porque eles merecem. Quando há uma Feira do Livro, a primeira coisa que eu faço é dirigir-me àqueles livreiros que vendem livros desse tipo que às vezes até estão a ser vendidos ao preço da chuva. Vou primeiro a esses porque os outros também posso compra-los numa livraria qualquer.

NCDL – Se algum futuro escritor te abordasse para pedir um conselho, qual seria o conselho que darias?

CT – Nunca desistas. Só isso! Querer escrever é como querer alcançar qualquer outro tipo de sonho que se tenha. O mais importante é, de facto, acreditar no sonho que temos e nunca desistir de o alcançar. Eu daria esse conselho porque eu comecei a escrever muito novo e depois desisti e deixei passar grande parte da minha vida sem lhe ligar coisíssima nenhuma. Até que um dia houve um flash cá dentro que fez emergir novamente o sonho, e agora, nem pensar em deixa-lo desaparecer novamente. Não é uma coisa muito original, mas é o melhor conselho que eu posso dar a alguém. Não desistas daquilo que queres. Queres ser tradutora, não desistas. Quando tudo parece eminentemente falível e não parece rumar para lado nenhum, há sempre algum momento na nossa vida, e não serão terceiros que nos irão fazer ver isso, mas nós próprios, em que nos apercebemos de uma verdade que não podemos deixar escapar: “Bolas! Das duas, uma; ou eu apostei no cavalo errado ou então eu tenho é que saltar para cima dele e seguir em frente.” Mas, tens de ser tu a tomar noção disso. Eu tinha o sonho de querer ver o meu trabalho publicado. Ora, se nenhuma editora me pegou, então para já, vou pagar para que isso aconteça. Não era este o verdadeiro caminho que eu gostaria de seguir, mas foi o que consegui na altura. Mas também foi trilho único! Não pago mais para escrever! Por isso que nesta nova novela, o “Corre!” fiz auto-publicação no Bubok, ainda ninguém o comprou é certo, mas escrevi-o, adorei escrever aquela história e publiquei-a eu mesmo. Quem quiser comprar, compra! Eu escrevi-a e entreguei-a a quem a quiser, agora… não, não vou nunca mais pagar para escrever, é ridículo! Nem aconselho! Algumas pessoas perguntam-me: “O que é que achas da Chiado?” Penso o mesmo que penso de todas as outras editoras do mesmo género. Não se metam nisso! São editoras, é certo, mas vejo-as como se fossem chacais que se aproveitam dos sonhos por concretizar. Porque há muita gente, que quer concretizar o sonho de ser escritor. E eu aconselho, não desistam, mas cuidado, porque andam por aí muitos chacais à volta que te dizem que sim. Mais vale tentarem domar os leões, do que serem devorados até ao osso pelos chacais. Agora insisto, desistir, nunca.

NCDL – Por fim, uma palavra para os leitores do Na Companhia dos Livros e quiçá teus futuros leitores.

CT – Continuo a acreditar que enquanto houver um espírito vivo de prazer pela leitura e esse espírito for transportado para estes meios de divulgação como o teu blog e como muitos outros que existem, e que não estão a ganhar nada com isso, excepto o fundamental, que é a divulgação, a criação de um elo importantíssimo entre autores e leitores, e que, ao mesmo tempo enriquecem as pessoas que lá participam com experiências que provavelmente não encontrariam noutros lados, ou se encontrassem provavelmente teriam de pagar por elas. Enquanto existir esse espírito, o mundo da literatura só tem a ganhar com isso. Pois é importantíssimo o papel, e eu tenho sentido isso muito, que este género de blogs literários têm desempenhado no progresso da divulgação de novos autores, porque de outro modo haveria uma grande dificuldade de eles vingarem e do seu nome começar a ser falado e comentado. De modo que, um bem-haja para os administradores deste blog, neste caso tu, e também para aqueles que o seguem porque estão a seguir algo que é um bem maior. Uma coisa que pode parecer um grãozinho de areia, não o é. Representa uma imensa praia acolhedora, onde todos juntos podemos fazer com que as pessoas ganhem novamente o prazer de ler. E não é isso o mais importante de tudo? Existem tantos livros, e tão pouco tempo para ler, e normalmente são sempre aqueles que estão num patamar acima que recebem maior atenção e os outros pequeninos só mesmo graças ao trabalho das pessoas que gerem estes blogs é que conseguem um lugar ao sol. De modo que todos aqueles que fazem parte destes blogs e os que seguem também são eles próprios pessoas de bom gosto porque estão a seguir algo que dignifica uma das mais significativas funções humanas, a literatura.

Casimiro, agradeço-te muito a disponibilidade que mostraste para esta conversa muito interessante e descontraída. Desejo-te, com toda a sinceridade, que tenhas muito sucesso no teu percurso como escritor e que atrás deste romance venham muitos mais!

2 pensamentos sobre “Uma conversa com… Casimiro Teixeira

  1. Belíssima entrevista, principamente quando o autor se refere à sua editora e ao facto de ter que pagar para ser editado. Para mim, Casimiro Teixeira mostrou-se um escritor “com tomates” (perdoe a expressão) porque meteu o dedo na ferida!

    José Pascoal

  2. Oi flor!
    Nossa, parabéns pela entrevista! O autor realmente gosta de escrever e não apenas livros, contos né? Até nas respostas ele capricha!

    Nenhum professor de português me incentivou à leitura, fui por conta própria mesmo, hehehe!

    Beijos!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s