A Ninfa Inconstante

Estela é uma jovem de 16 anos cuja inocência não passa de uma mera aparência. É por essa aparente inocência que se apaixona o narrador desta obra, um homem mais velho, crítico de cinema e de tal modo insatisfeito com o seu casamento que a esposa há muito deixou de espera-lo acordada ao final do dia. Pelos fios da memória do protagonista, surgem histórias de paixões e desilusões, de traições e de enganos. Mas é também uma obra sobre Havana. As suas ruas, as pessoas, os edifícios, os cafés, a música. Como se a cidade deixasse de ser um mero pano de fundo e passasse a ser, também ela, parte fundamental das memórias do protagonista.
Para mim, Cabrera Infante foi mais uma estreia. Na verdade, uma conturbada mas interessante estreia. Este autor não tem um estilo de escrita fácil. Ao longo das linhas vão aparecendo todo o tipo de referências culturais em catadupa, desde cinema, passando pela música, pela filosofia ou pela própria literatura. Infante constrói, assim, em torno de uma história aparentemente simples um intrincado puzzle onde nada parece fazer sentido mas com o evoluir da história, esse pequenos elementos parecem fazer sentido. Como os boleros que Estela vai cantando ou as muitas citações que o protagonista vai fazendo em momentos chave. Claro que em alguns momentos, senti-me como Estela quando repetia vezes sem conta “Esmagas-me com a tua cultura”. No entanto, todas as descrições presentes no livro transportam o leitor para uma Havana não muito distante no tempo (1957) graças à riqueza nos detalhes. Outro dos elementos que me agradou também neste livro foi o sentido de humor bastante apurado e ao mesmo tempo subtil do seu autor. Foram várias as tiradas ao longo das páginas que me fizeram sorrir. Uma nota negativa que tenho a fazer sobre esta edição em particular da 11×17 é sobre a formatação do texto em si. Em praticamente todas as páginas existem várias palavras onde foram suprimidos os espaços entre elas. Concluindo, Cabrera Infante é um autor a que quero, sem dúvida, voltar em breve.
Classificação: 4/5
“Há sempre um conflito entre o amor e a vida. Chama-se a isso romantismo, que é, no fim de contas, mais uma posição perante a vida do que diante a arte. Se se diz e se repete: “Sou um romântico incurável”, está a admitir-se uma doença. Isto é, um estado crónico, uma espécie de gripe do espírito, e a única coisa que pode curar essa doença é outra doença incurável. O medo, por exemplo.”

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