O Homem que Gostava de Cães

Liev Davidovitch Bronstein, mais conhecido por Trótski, foi uma das figuras cimeiras da Revolução Bolchevique em Outubro de 1918 e fundador do Exército Vermelho. Após a morte de Lenine, torna-se personna non grata por intervenção de Estaline, que tudo fez para descredibilizar Trótski internacionalmente. Depois de exilado em Alma Ata, conhece exílio em países como Turquia, França, Noruega e por fim México. É neste país que o velho revolucionário conhece o desfecho trágico. Ramón Mercader del Rio foi um comunista espanhol a quem foi entregue uma missão: fazer desaparecer o renegado traidor, o inimigo maior da pátria soviética, Trótski. Mudou de nome, mudou de pátria, mudou de língua e de origens. No final, aquele que foi escolhido como o herói soviético tornou-se vítima da visão deturpada de uma ideologia aos olhos de um só homem, Iussef Estalin. Foi com estas histórias que um dia Iván Cardenas, aspirante a escritor cubano que viveu na pele a crise provocada pelo Pós-Revolução na ilha, se cruzou ao conhecer uma estranha figura que passeava na praia com dois galgos russos. Para Iván, aquele homem seria sempre “o homem que gostava de cães”.
Este seria mais um daqueles livros que me passaria ao lado durante bastante tempo caso nunca tivesse visto a entrevista que Padura deu ao programa “Ah, a Literatura!” do Canal Q (para os curiosos, podem ver a mesma aqui). Quem olha para as suas 617 páginas e para o seu tema base pode sentir-se algo intimidado, mas a realidade é que o livro que prende o leitor da primeira à última página. Este é daqueles livros que consegue ser um page-turner e ao mesmo tempo não o ser. Pode parecer confuso mas eu explico. O enredo de toda a obra é viciante e aliciante, o tipo de história que o leitor está sempre ávido para perceber qual será o próximo passo das personagens, que destino lhes está reservado. Mas o volume de informação que preenche os três planos de narração obriga o leitor a digerir cada página com calma no sentido de assimilar tudo convenientemente. São muitos os momentos históricos visitados: Revolução Bolchevique e Menchevique, Segunda Guerra Mundial, Guerra Civil Espanhola, Revolução Cubana, etc.No fundo, é uma obra muito bem escrita, que denota um excelente trabalho de pesquisa (justificando-se assim os cinco anos que Padura demorou a escreve-lo) e que fala sobretudo de sonhos e utopias perdidas. Para os fãs de um bom Romance Histórico, mas também para os interessados na História do séc. XX, este é o livro a ler. Não se vão arrepender.
Classificação: 5/5
“É impossível conceber uma atitude mais sádica e doentia. Terrível é saber que o homem capaz de a praticar é o mesmo que dirige hoje o nosso país e a revolução que, de maneiras diferentes mas com a mesma paixão, sonhámos tu e eu, e sonhou Lenine e tantos homens que Estaline está a aniquilar e aniquilará no futuro. E tenho a certeza que entre os sacrificados do matadouro estalinista estará Bukharin, que teve tanto medo que preferiu a certeza da morte ao risco de ter de mostrar coragem para viver o dia-a-dia.”

Um pensamento sobre “O Homem que Gostava de Cães

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