O Falador

Ao longo de 245 páginas, Mario Vargas Llosa cria duas realidades distintas que se vão alternando ao longo das mesma. Numa primeira realidade temos a personagem principal que, após visitar uma exposição fotográfica sobre a tribo machigenga em Florença, começa a escrever as suas memórias ligadas a essa mesma tribo. Dessas memórias fazem parte o casal Schneil, membros do Instituto Linguístico de Verão que dedicaram 25 anos da sua vida à tribo, e Saul Zuratas, filho de pai judeu, colega do narrador na Universidade e que mais tarde se tornou um defensor acérrimo das tribos amazónicas face à ocidentalização e aculturação das mesmas. Numa segunda realidade o ponto de vista dos próprios machigengas contada por intermédio de um falador. Falador era um contador de histórias, alguém respeitado pelos membros das aldeias machigengas que era conhecedor dos primórdios da Humanidade, da história e da origem do povo machigenga. Este falador conhecia também o presente dessas famílias, sabia dos nascimentos, casamentos, falecimentos, mudanças, acidentes, etc. No fundo, este é um contrabalançar entre a cidade e a selva, o moderno e o primitivo.
*Atenção: pode conter alguns spoilers*
Mais um livro de Vargas Llosa e mais uma boa surpresa que se repete. Quando comecei a entrar dentro desta história, julguei que o falador fosse uma personagem tipo Malinche, alguém que servisse como “língua” entre a tribo e os outros povos. Com o evoluir da história percebi que o papel deste falador era bem mais interessante. Com o falador aparecem também os capítulos mais complexos do livro, cheios de elementos culturalmente específicos destas tribos amazónicas, o que exige uma constante consulta do glossário. Um elemento que achei engraçado foi um pequeno momento “Metamorfose de Kafka” nos capítulos mais tribais do livro, que acaba por fazer uma ligação com um elemento dos capítulos citadinos, o papagaio de Saul. Mas o ponto que une os dois tipos de capítulos é a escrita propriamente dita. Uma escrita muito viva, muito fotográfica, sensorial até. Atrevo-me a dizer que aqueles leitores que estiverem completamente concentrados e dentro da obra poderão jurar que ouviram um papagaio algures ou que sentiram formigas a passear-lhes pelos pés. Para isso contribuiu o trabalho do tradutor desta obra, António José Massano, que, apesar de algumas pequenas incorrecções não prejudiciais à compreensão, conseguiu manter a beleza que esta história encerra. Um excelente livro para quem aprecia a escrita de autores sul-americanos.
Classificação: 4/5
” – Os nossos automóveis, canhões, aviões e coca-colas dão-nos direito a liquidá-los, só porque eles não têm nada disso? Ou acreditas nisso de “civilizar os chunchos”, meu caro? Como? Fazendo-os soldados? Pondo-os a trabalhar nas chácaras, como escravos dos crioulos tipo Fidel Pereira? Obrigando-os a mudar de língua, de religião, de costumes, como querem os missionários? Que se ganha com isso? Que os poderão explorar melhor, e só isso. Que se converterão em zumbies, nas caricaturas de homens que são indígenas semiaculturados das ruas de Lima.”

Um pensamento sobre “O Falador

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