Lituma nos Andes

Isolados num acampamento mineiro situado nas montanhas agrestes do Peru, o cabo Lituma e o seu ajudante Tomás procuram investigar o que aconteceu a três habitantes da região. Enquanto que a maioria da população defende que os desaparecimentos foram obra do Sendero Luminoso, um movimento guerrilheiro e revolucionário de ideologia maoísta, o cabo Lituma desconfia que a explicação para os mesmos não é assim tão lógica. A par deste enredo principal, outros pequenos enredos vão aparecendo. São exemplos disso a história de Tomás e Mercedes que o próprio Tomás vai contando ao cabo todas as noites, relatos de pilhagens e assassinatos protagonizados pelo Sendero Luminoso, as histórias do passado de Adriana e Dionísio, donos da cantina local, etc. Mas este é sobretudo o relato do terror que aquelas populações viviam no dia-a-dia, tendo o fantasma da organização paramilitar a pairar-lhes sobre as cabeças.
Com esta obra, percebi a essência da justificação dada pelo juri do Prémio Nobel para atribuir o galardão a Vargas Llosa. Engane-se quem pensa que esta é uma obra fácil de ler. Tudo o que a envolve é duro, agreste como as fragas da montanha. Os temas que autor aborda como o totalitarismo, a perversão moral ou o labirinto obscuro das relações humanas são duros. A realidade de atraso, incultura, miséria e de superstição que deixam o país num limbo entre a modernidade e o Terceiro Mundo a que as populações das montanhas estão votadas é dura. Dura é também a maneira como Vargas Llosa passa isso para a sua escrita, fazendo descrições fortes e cruéis. Mas apesar de tanta dureza e crueldade, o autor traz aos seus leitores um relato interessante daquilo que era o Peru dos anos 80, um país que tremia às mãos de um movimento paramilitar que abandonou as suas pretensões políticas e rendeu-se à barbárie pura. Não posso deixar de frisar o trabalho do tradutor da obra, Miguel Serras Pereira, que com algumas notas de rodapé permite que os leitores compreendam alguns elementos culturalmente específicos da região peruana. Concluindo, para quem gosta de romances com base histórica está é uma boa leitura.
Classificação: 4/5
” – Obrigada pelo que me toca – riu-se o guarda. E, passado um instante – não julgue que se os do acampamento são frios com o meu cabo por causa de o meu cabo ser costenho. É por causa de ser polícia. A mim também me olham de lado, apesar de ser cusquenho. Não gostam de fardas. Têm medo que os terrucos os justicem por bufos se se misturarem connosco.”

Um pensamento sobre “Lituma nos Andes

  1. Nossa Isa, você gosta de uns livros bem diferentes né? Eu não gosto de livros assim que envolve história sabe? Eu sofria na escola quando tinha que ler os clássicos da literatura nacional e esse parece do tipo… 😡

    Mas pra quem gosta, fica a dica né? 😉

    Beijos!

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