Enquanto Salazar Dormia…

Na Lisboa de 1941, governada por Salazar que parece “dormir” face ao conflito mundial entre ingleses e alemães, jogos políticos, de espionagem e contra-espionagem acontecem debaixo do nariz dos mais incautos. Nos grandes hotéis da cidade cruzam-se espiões, embaixadores, empresários, estrelas de cinema, monarcas sem trono. Pelas ruas misturam-se idiomas dos milhares de refugiados, na sua maioria judeus, que chegam à capital portuguesa em busca da almejada porta de saída da perseguição selvagem de Adolf Hitler. E é nesta Lisboa que vive Jack Gil Mascarenhas, um luso-britânico contratado pelo MI6 para desmantelar as redes de espionagem nazis a operar no país. O mesmo Jack Gil, agora com 85 anos, que nos conta a sua história ao regressar à Lisboa que tantas memórias lhe deixou para assistir ao casamento do neto.
Poucos de nós estamos familiarizados com muito do que aconteceu por terras lusitanas durante a Segunda Guerra Mundial. Eu própria nunca imaginei que nas nossas costas se deram batalhas aéreas ou que Lisboa era um ninho fervilhante de espiões. No que toca à linguagem usada, não é nada de especial, bem simples até. Uma narrativa muito focada na acção, onde predominam os diálogos entre personagens, e não tanto em recursos de estilo ou literários para abrilhantar o texto. Por vezes o nível de língua descia demasiado baixo, a roçar o brejeiro, o que, na minha opinião, por vezes estragava a percepção de todo o contexto. Mas isso é compensado pela trama em si, onde predominam momentos históricos muito interessantes. Todos os relatos históricos, bem como a descrição de lugares, personagens, costumes e comportamentos revelam um minucioso trabalho de pesquisa. Para terminar, o ponto que menos piada achei no livro. A tentativa de fazer de Jack Gil um “James Bond à portuguesa”. As ligações que esta personagem teve com Mary, Alice e Anika pareceram-me demasiado mirabulantes para sequer terem sentido. Concluindo, esta obra pode não ser uma pérola da literatura mas é um bom livro do ponto de vista histórico, de onde se sai sempre a aprender alguma coisa.
Classificação: 4/5
“- E nós aqui, enquanto Salazar dorme… – dizia o meu amigo Michael.
E era mentira e era verdade, porque ele não dormia, ele controlava o país, dizia-se que sabia tudo; controlava as pastas das Finanças, da Guerra, dos Negócios Estrangeiros, falava todos os dias com o capitão Agostinho Lourenço, chefe da PVDE (chamava-se assim, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), e ele queria saber tudo e muitas vezes soube também de nós.”

2 pensamentos sobre “Enquanto Salazar Dormia…

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