A Trança de Inês

Nesta obra, Rosa Lobato de Faria desmonta e recria a sobejamente conhecida história de amor de D. Pedro e de Inês de Castro de modo a obter três histórias que, embora passadas em épocas diferentes, apresentam moldes semelhantes: Pedro, Inês, um amor proibido e um desfecho trágico. E todas estas histórias acontecem dentro da mente perturbada de Pedro de Santa Clara, que nas suas sessões de pintura acaba por incluir um tema recorrente nas suas telas, os cabelos loiros da sua amada Inês. Numa primeira vida acompanhamos a história original passada no séc. XIV. Na segunda vida estamos no presente, onde Pedro e Inês pertencem a famílias de empresários rivais. Na terceira vida avançamos para o futuro, num planeta que se converteu ao Salvismo e a sociedade é dividida em dois grupos, os Continuadores e os cidadãos ípsilon, que não se podem misturar, sob pena de morte.
Este é o tipo de livro que primeiro se estranha e depois se entranha. Passo a explicar, de capítulo para capítulo as três vidas que refiro em cima vão se alternando, criando um efeito algo estranho para quem está a ler. Por momentos existe a impressão que os doidos somos nós e não Pedro. Mas a partir do momento em que começam a encontrar-se os paralelismos entre as três vidas, aí o texto ganha a magia e o encanto que o acompanha até ao final do livro. Existe um aspecto que achei curioso, o final em aberto. Rosa Lobato de Faria não terminou a última frase do livro. Quereria a autora manter propositadamente este final em aberto? Será esta uma forma da autora apelar à imaginação dos leitores no sentido de cada um encontrar na sua mente uma continuação coerente ou incoerente (seguindo um pouco a lógica do livro) para a personagem em questão? Outro dos aspectos que me deixou a questionar-me durante a leitura foi a visão muito detalhada que a autora teve do futuro. Redução de população, quotas de reprodução, sociedade dividida em duas classes, poupança exaustiva de recursos, protecção apertada da Natureza e do planeta. Caminhará  perigosamente a Humanidade para um cenário semelhante ou esta é apenas uma visão catastrófica que a autora teve para melhor enquadrar o Pedro e a Inês de uma terceira vida? Para concluir, esta não deixa de ser uma história de Amor e Paixão, apresentada na escrita poética e melodiosa de Rosa Lobato de Faria. Uma história que eu recomendo sem qualquer problema.
Classificação: 5/5
“Assim repousaríamos para todo o sempre, os pés da minha sepultura de frente para os pés da tua, para que, no juízo final, na hora da ressurreição da carne, os nossos corpos, erguidos da pedra, fossem os primeiros a encontrar-se, a unir-se no abraço de que tão ferozmente te arrancaram.”

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