A Festa do Chibo

Passado durante a ditadura de Rafael Trujillo, que governou a Republica Dominicana entre 1939 e 1961, Vargas Llosa apresenta esta obra em três planos narrativos distintos que se vão encadeando ao longo da mesma. O primeiro é o plano presente, onde acompanhamos a visita de Urania Cabral, filha de Agustin Cabral (uma importante figura do regime trujillista que caiu em desgraça), muitos anos depois de abandonar Ciudad Trujillo (a capital Santo Domingo de Guzman, renomeada durante a ditadura), recordando com ela acontecimentos do passado. No segundo plano acompanhamos o prisma do regime, a visão do país aos olhos de Trujillo, as manobras políticas, o pós assassinato do ditador e todas as convulsões que daí advieram. No terceiro e ultimo plano acompanhamos o plano dos revoltosos que assassinaram Trujillo e todo o desenrolar dos acontecimentos após o assassinato.
Após a atribuição do Nobel da Literatura a Vargas Llosa e da explicação que levou o júri a atribuir-lhe semelhante prémio, a minha predilecção por romances históricos atirou-me directamente para esta obra em particular. Com excepção do golpe de Estado no Chile que depôs Salvador Allende ou a Revolução levada a cabo por Fidel Castro em Cuba, são poucos os conhecimentos que chegam às pessoas sobre a política da América Latina. Olhando mais concretamente para a figura de Trujillo, chega-se à conclusão que não existem muitas diferenças quanto ao modelo operacional dos vários ditadores que a História conheceu. Hitler, Mussolini, Salazar, Franco, os vários ditadores dos países árabes, o próprio Trujillo, todos eles cultivaram um clima de repressão e de culto do líder nas populações que dirigiam. Falando do livro em concreto, Vargas Llosa foi uma agradável surpresa. Tem uma escrita muito empática, que cola o leitor às páginas. As descrições são muito vivas, formando imagens bastante fortes na mente de quem lê. As cenas das torturas são exemplo disso, as imagens que Llosa nos transmite são horripilantes ao ponto de me fazer fechar o livro e benzer-me com tamanha crueldade. Para quem gosta de romances históricos, este é um livro que eu recomendo sem problemas nenhuns.
Classificação: 5/5
“Não compreendes, Urania. Há muitas coisas da Era que não conseguiste compreender; algumas, a princípio, pareciam-te inexplicáveis, mas, à força de leres, ouvires, comparares e pensares, acabaste por compreender como tantos milhões de pessoas, esmagadas pela propaganda, pela falta de informações, embrutecidas pela doutrinação, o isolamento, despojadas do seu livre arbítrio, de vontade e até de curiosidade pelo medo e pela prática do servilismo e da lisonja, puderam acabar por divinizar Trujillo.”

2 pensamentos sobre “A Festa do Chibo

  1. Também achei o livro muito bom e a escrita do Vargas Llosa uma boa surpresa ou não, porque os escritores sul-americanos raramente desiludem. Há qualquer coisa naquele hemisfério que os faz assim… bons. Gostei imenso da forma como ele estruturou a história a ligação entre as três partes que referes está muito bem feita. É definitivamente um escritor para continuar a ler. 🙂
    “A Trança de Inês” é também muito bom. Estás a começar o ano em grande! 🙂

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