A Queda Dum Anjo

Calisto Elói, morgado de Agra de Freimas, vive numa pequena aldeia, de seu nome Caçarelhos, em perfeita harmonia com a sua esposa, D. Teodora de Figueiroa. O conhecimento dos clássicos, aos quais dedicou as leituras de toda uma vida, encheu-o de uma sabedoria moralista e conservadora que faz com que seja eleito deputado pelo círculo de Miranda. A sua presença em Lisboa e os seus discursos no Parlamento fazem sensação por causa da defesa da moral dos costumes antigos em detrimento do luxo e dos teatros. A experiência da sociedade lisboeta, no entanto, não deixa o morgado imune. A contaminação da personagem e os indícios da queda expressam-se exteriormente através da primeira visita a um alfaiate lisboeta. Esse é o primeiro passo de um percurso que culminará na transfiguração de anjo em alguém que a sua própria mulher não reconhecerá. Esta transfiguração exterior traduz uma metamorfose moral, consumada na defesa de princípios liberais em discursos tão ocos como aqueles que no início condenara e na ligação adúltera que mantém com uma viúva brasileira, D. Ifigénia Ponce de Leão. Com isto, Camilo pretende, usando a história de Calisto como alegoria, traçar o processo de contaminação de um Portugal saudável e incorruptível pelas mudanças políticas, sociais, culturais e religiosas da época.
Confesso que já não pegava em Camilo Castelo Branco desde que estudei o livro Amor de Perdição no Ensino Secundário. Aproveitei que me cruzei com este exemplar bastante em conta na Feira do Livro da Póvoa de Vazim para o adquirir e encontrar-me de novo com a obra camiliana. Através da história de Calisto, Camilo defere duras críticas à sociedade, com especial enfoque na classe política. Mas apesar de essas mesmas críticas serem pungentes, o tom com que o autor aborda ao tema é leve. Camilo utiliza o humor, criando uma série de personagens-tipo para alcançar o ponto a que pretende chegar. É esse humor que, de certa forma, facilita a leitura desta obra e não a torna demasiado maçadora ou cansativa. Foram várias as gargalhadas que dei durante a leitura, principalmente nos momentos de discussão parlamentar. Os discursos da Assembleia em 1820 parecem tão vagos de ideias e tão cheios de palavras vãs como os de hoje. Um livro interessante, que recomendo a quem tem gosto pelos livros considerados clássicos da nossa literatura.
Classificação: 4/5
“O mau português principia a sê-lo desde que mareia a pureza de sua língua. Dêem-me portugueses de língua, e eu me bandearei com eles, como com portugueses de coração. Com aquele Dr. Libório do Porto nem para o céu. Tenho medo que Deus não o entenda, e nos ponha ambos fora de cambulhada.”

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