a máquina de fazer espanhóis

Depois de quarenta e oito anos de convivência com a sua Laura, António Silva, um barbeiro reformado, vê-se privado do que mais prezava (a esposa e o seu próprio lar) para ser deixado num lar de idosos ironicamente chamado “Feliz Idade”. A partir da entrada no lar sucedem-se histórias, numa passagem dos dias que vão lentamente aproximando-se do fim. valter hugo mãe fala-nos do que é ser velho nos dias de hoje. Do que é perder muitas vezes a dignidade e ser encostado a um canto depois de toda uma vida de esforço, trabalho e sacrifícios, para não dar muito trabalho à família. Através dos utentes do lar, recorda-se os fantasmas que cada um transporta, as coisas do antigamente como o Estado Novo, o fanatismo em torno do futebol, a religião ou mesmo a alma fadista, pessimista e nostálgica que cada português parece ter bem encerrada nos genes desde o berço.
Cria-se todos os dias a imagem perante a sociedade que os lares de idosos são depósitos de gente, onde aqueles que para lá vão ficam a contar os dias até ao seu último suspiro. Se certo modo, valter hugo mãe tenta com este livro alertar as consciências, no sentido de fazer ver a esta sociedade que os nossos idosos são pessoas como qualquer um de nós e que merecem semelhante tratamento de respeito. Não é um livro fácil de ler. O recorrente tema da morte e do caminho contra o próprio corpo quando os números da idade começam a pesar nos ossos consegue ter angustiante. Mas o tom ligeiro com que algumas conversas mais triviais dos utentes são apresentadas deixam um sorriso nos lábios, como se num lugar triste como parecem ser os lares houvesse aqui e ali uma réstia de alegria. Achei particularmente estranho a presença de dois capítulos com uma escrita completamente diferente da do escritor que adoptou a “Princesa do Ave” como porto de abrigo, quase como caídos ali de para quedas, e que parecem saídos de um livro de Francisco José Viegas. Num compto geral, um livro muito interessante à sua maneira e que prende o leitor às páginas.
Classificação: 4/5
“podias ser francesa, elisa. podias ter sido francesa, embora nos dê um orgulho tão grande a resistência que te permitiu ser portuguesa e, assim, herdar portugal. portugal é teu, minha filha, é teu, mesmo assim difícil de compreender.
(…). não queríamos ser franceses, queríamos que os portugueses fossem mais felizes. isso é que era, e que se fodessem os espanhóis e o general franco que era uma merda como a que aturávamos nós”

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