O Rastro do Jaguar

Toda esta narrativa começa em Paris, onde conhecemos dois capitães do exército napoleónico. Pereira, que assume o papel de narrador, filho de um judeu português e de uma camponesa nortenha, mais tarde naturalizado francês; e Pierre de Saint-Hillaire, um índio guarani adoptado pelo cientista Saint-Hillaire que o trouxe ainda criança do Brasil para França. Levado pelas pistas de uma outra personagem ligada a Saint-Hillaire, Pierre parte então para o Brasil, acompanhado por Pereira que, credenciado pelo jornal Le Figaro, vai ser correspondente no Brasil da guerra que decorria no Sul do território. Os principais cenários da acção vão de Paris a Congonhas do Campo, à Baía, ao sertão de Minas Gerais, ao Rio de Janeiro, a Montevideu e Buenos Aires, à zona das missões do Rio Grande do Sul, onde vivem os índios guaranis e ao teatro da guerra do Chaco, que opôs o Brasil, o Uruguai e a Argentina coligiados às tropas paraguaias do ditador Solano Lopez.
Este não foi um livro fácil. Se, por um lado, as quase 500 páginas foram um pequeno desincentivo a uma leitura mais atenta e cuidada, por outro a quantidade de assuntos diferentes, como os momentos históricos, as reflexões sobre a filosofia de vida das tribos indígenas ou mesmo a própria religião, ao longo de cada capítulo fazia com que a leitura se tornasse algo complexa. Mas atenção, com estes argumentos não estou a considerar este livro uma má obra. Toda a envolvência histórica sobre a guerra entre Brasil/Argentina/Uruguai e Paraguai é interessante, já que são pontos nem sempre estudados ou discutidos com regularidade. A escrita deste escritor mineiro pode não ser muito trabalhada mas transmite cores, sons e sensações. Além disso, são várias as reflexões que o autor apresenta pela voz do jornalista Pereira que deixam os leitores a pensar um pouco, nomeadamente quando aborda temas como a justificação das guerras ou a intransigência da sociedade para com aqueles que não se enquadram nos seus moldes pré-definidos. Uma última nota sobre as descrições do autor dos cenários de guerra. As imagens que transmite são bastante fortes, cruéis até, capazes de repugnar os leitores mais sensíveis.
Classificação: 4/5
“Representavam a brutalidade de um sertão que os colonizadores reduziram ao passado; representavam a síntese de toda a teoria econômica que permeou o processo de colonização europeu, baseado no tripé dominação, exploração e catequização. Dominar pelo medo; explorar toda a forma de trabalho possível; catequizar para conter revoltas.”

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