Mau Tempo no Canal

Todo o enredo do livro tem como ponto de início aquilo que pode ser o despontar de um namoro entre João Garcia, filho de uma família de novos ricos, e Margarida Clark Dulmo, elemento mais novo de uma família respeitável, aristocrática e quase em falência, mas cujas famílias estão afastadas por questões e ressentimentos antigos. Mas com o avançar da narrativa, vamos percebendo que as diferenças sociais entre os dois jovens são um mero pretexto para extrapolar a questão para a sociedade em geral. Vemos as relações de uma sociedade antiga, com as suas regras, convenções, tiques e limitações. São também apresentadas as particularidades de uma sociedade de ilha, forçosamente limitada, pequena e onde tudo é exagerado e parece, a espaços, desajustado.
Por vezes parece inexplicável o fascínio que a grande maioria nutre pelo arquipélago do Açores. Os seus campos de um verde eterno, as também elas eternas vacas malhadas a pastar, os ramalhates de hortenses que pautam a beira das estrada ou mesmo os muros de pedra negra a dividir propriedades são as imagens que nos saltam logo ao imaginário quando se fala nestas ilhas atlânticas. Eu não sou excepção, e a leitura desta obra abriu o apetite para visitar aquele pedacinho de Portugal. Gostei bastante tanto da escrita, como da história em si. Certos capítulos estão recheado daquilo que foi uma transposição do modo de falar das ilhas onde se passa a narrativa, com mais incidência no Faial e o Pico, apesar das breves referências a São Jorge e à Terceira. No inicio pode tornar-se algo complicado perceber o discurso dessas personagens, na sua maioria pessoas pobres e iletradas, mas com o avançar dos diálogos a escrita torna-se mais perceptível à nossa compreensão. Um ponto que eu não posso deixar de referir são as descrições, já que locais naturais com a beleza das paisagens açorianas só podem dar belos quadros quando passados para as letras.
Um livro que recomendo a todos os amantes da língua portuguesa e do nosso Portugal.
Classificação: 4/5
“…Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta… Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com caminho à roda, o Pico em frente… gaivotas… sem ninguém.”

5 pensamentos sobre “Mau Tempo no Canal

  1. tonsdeazul, deixo-te apenas um pequeno spoiler que não referi na opinião. Há momentos no livro que pode não agradar a toda a gente, por exemplo, o momento em que se descreve todo o ambiente de uma tourada e a já extinta caça à baleia.

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