A Paixão Segundo G.H

G.H, a narradora e única personagem activa do romance, está no seu apartamento a tomar o pequeno almoço, momento rotineiro de cada dia. Quando termina, dirige-se ao quarto da empregada, que acabara de deixar o emprego, afim de o limpar. Ao inspeccionar o mesmo, vê uma barata a sair de um armário. Este evento provoca-lhe extrema naúsea, mas ao mesmo tempo, é o gatilho para uma longa e difícil avaliação da sua própria existência, sempre resguardada e muito acomodada aos luxos da vida. A visão da barata é o seu momento de iluminação após o qual já não é a mesma, deixando de ser uma simples mulher a tomar o pequeno almoço numa qualquer manhã. Nesse momento, deflagra-se na narradora a consciência da solidão (tanto dela, quanto da barata).
Este ano decidi voltar de novo a Clarice Lispector. Devido à boa experiência que tive com os 3 livros que li o ano passado, esperava nesta obra em questão ter uma experiência igualmente agradável. Infelizmente tal não aconteceu. Não sei se por causa do stress académico em que estive envolta na ultima semana se por causa do animal em que se centra toda a dinâmica do livro, a barata (bicho esse que eu repugno), a uma certa altura a leitura começou a tornar-se cada vez mais enfadonha. enfastioso até. Por isso obriguei-me a parar a leitura e não pegar em mais nenhum livro até me sentir em pleno controlo das emoções para continuar. E quando o fiz reencontrei a escrita que tanto me agrada em Clarice Lispector. As frases repetem-se no fim de um capítulo e início do seguinte, como se partindo daquele ponto a narrativa se expandisse para outro lado. Outra das coisas de que gostei foi o facto de, apesar de este não ser um livro completamente voltado para a espiritualidade e o divino, G.H. procurar um paralelismo na mensagem religiosa, nomeadamente da Bíblia, no sentido de explicar as dúvidas que lhe surgem sobre a sua própria condição de mulher e ser humano. Um livro a que tenho que voltar numa outra altura, com mais calma.
Classificação: 3/5
“O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal. Enquantos que os seres inumanos, como a barata, realizam o próprio ciclo completo, sem nunca errar porque eles não escolhem. Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona de minha fatalidade e, se eu decidir mão cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana.”

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