Quantas Madrugadas Tem a Noite

Ao balcão de uma taberna de Luanda, e fartamente regada a cerveja, conta-se a atribulada história de AdolfoDido. Sim, porque com tantas voltas que este enredo deu, atribulada só pode ser o adjectivo a utilizar. Para além de Adolfo, têm lugar na estória BurkinaFaçam, o anão que um dia sonhava criar o Sindicato Nacional de Prostitutas; o albino Jaí, professor recatado; a KotadasAbelhas, que ao matar a abelha rainha se tornou rainha da colmeia; DonaDivina e KiBebucha, esposas, cada uma a seu tempo, de Adolfo e que reclamavam para si o lugar de “primeira viúva do estado”; e por fim o puto PCG (Pisa-com-Gêto), um míudo na rua, como dizia Jaí, que morava num Castelo com outros míudos.
Mais um livro que, apesar de ter sido lido em pedaços curtos ao longo da semana, me deu um enorme prazer ler. De cada vez que o retomava percebia porque gostava tanto dele. Primeiro porque foi motivo de enumeras gargalhadas, contidas é certo. Depois, porque o discurso do narrador está naquilo a que me atrevo a chamar um “português todo-o-terreno”, sem cuidados nem preocupações com a gramática ou a ortografia. E isso faz com que em certos momentos, o texto deixe no ar um cheirinho à escrita de Mia Couto, tal é a quantidade de palavras meio inventadas na improvisação da conversa. E por fim, aquilo que mais prazer que me dava ler, a quantidade de pequenas pérolas de sabedoria popular que dão um colorido diferente ao texto como é o caso de O amor tem retalhos que a razão não sabe cozer, e outras semelhantes. Um ponto que pode afastar um pouco a dinâmica da leitura no início do livro é o extenso vocabulário culturalmente específico, que requer uma constante consulta do glossário. Mas como em tudo na vida, primeiro estranha-se e depois entranha-se. A escrita muito cromática e sensorial que parece ser apanágio dos autores africanos está presente, deixando os sentidos de qualquer leitor apurados e quase a jurar que o livro cheira a mel. Um livro a não perder!
Classificação: 5/5
“Mas, assim, pensas que isto tudo é uma confusão, circo meu das palhaçadas, cabeçadas na lógica? Ainda vais rir, mas prepara também o teu coração para chorar, a vida é mesmo um laço apertado, tem dias que lhe conhecemos os segredos – lhe desapertamos, outros dias lutamos só, nossas derrotas e lágrimas, e ficamos a olhar: o pescador se irrita com os nós da rede?”

3 pensamentos sobre “Quantas Madrugadas Tem a Noite

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