O Dia dos Prodígios

Publicado poucos anos após a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, O Dia dos Prodígios funcionou um pouco como uma alegoria ao estado em que Portugal se encontrava. A pequena aldeia de Vilamaninhos é então uma representação daquilo que era o Portugal do Estado Novo. Por isso, quando os soldados de Abril chegaram à aldeia, os seus habitantes não foram capazes de entender as repercussões da Revolução que se havia dado. Da mesma maneira, e pela mesma razão, quando se deu o prodígio que serve de ponto impulsionador de toda a obra, a cobra que escapou à morte voando, os habitantes não foram capazes de entender as proporções que tal milagre poderia trazer às suas vidas.
Quando esta segunda colecção de Autores Lusófonos da Visão foi anunciada, comentei que iria adquirir este livro com alguma desconfiança, já que os outros dois livros de Lídia Jorge que li não me convenceram. Pois bem, as minhas desconfianças quanto a este livro confirmaram-se. Mas começo por falar do ponto positivo que encontrei, porque nem tudo é mau nesta obra. Achei muito interessante o facto de Lídia Jorge ter escrito toda uma obra onde inclui marcas da oralidade, como são os casos do registo de língua, do uso de palavras caraterísticas da região e a tentativa de reprodução do sotaque no texto escrito. Estes elementos tornaram este “livro único”, para citar a contra-capa do mesmo. Mas os pontos positivos acabam aqui. Toda a estrutura do texto é confusa. Na grande maioria dos diálogos, as regras ortográficas não são cumpridas. Frases gramaticalmente correctas são cortadas a meio por pontos finais. A interacção de algumas personagens é estranha, como no caso de duas personagens que parecem ter aquilo que podemos chamar uma “conversa de surdos”, em que uma não está a prestar atenção ao que a outra está a dizer e, consequentemente, fala de um assunto completamente diferente. E tudo isto forma um conjunto que se torna cansativo de ler.
Com esta terceira má experiência, Lídia Jorge acaba de ganhar um lugar no grupo de autores a evitar.
Classificação: 2/5
“A gente olhava para aquelas coisas novas da nova era, e pensava que afinal, mesmo os instrumentos novos dos séculos do futuro acabavam por murchar ainda mais depressa que as nossas alfaias de ferro e pau. Então a gente, em vez de apanhar a camioneta que passava quase sempre à mesma hora, e nunca esperava por ninguém, começámos de novo a albardar os burros para ir a Faro.”

Um pensamento sobre “O Dia dos Prodígios

  1. Desta autora acho que só li O Vento Assobiando nas Gruas. Acho, porque se li outro perdeu-se-me na memória… Até gostei do O Vento Assobiando nas Gruas, mas concordo quando dizes que os textos são confusos e difíceis de seguir. A verdade é que não voltei a ler nada dela, por falta de oportunidade, mas a tua opinião ter-me-à afastado mais ainda dessa possibilidade.🙂

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