Aventuras de João Sem Medo

João Sem Medo, um pequeno burguês resoluto em ocultar o medo, fartou-se do ambiente da sua aldeia, Chora-Que-Logo-Bebes, e saltou o Muro que a separava da temível Floresta Branca, lugar onde nenhum habitante da aldeia alguma vez ousou chegar. A partir daí, toda a obra apresenta uma espécie de reverso do conto maravilhoso, pejado de seres e situações a roçar o surrealismo, onde a ambiguidade da escrita, tendo por destinatário um público não necessariamente infantil, permite entrever também uma sátira à situação nacional. Tendo em conta o ano em que esta obra foi escrita (1963), José Gomes Ferreira ao escrever que quem seguisse o caminho da felicidade completa tinha de se sujeitar a que lhe cortassem a cabeça para não pensar, critica implicitamente a censura do regime de Salazar.
Ao terminar este livro, a única palavra que eu consegui arranjar para o descrever foi hilariante. Numa mistura entre “As Viagens de Gulliver” de Swift e as aventuras de Alice de Lewis Carroll, Gomes Ferreira criou uma história de tal maneira recheada de puro “nonsense” que, para mim, foi impossível não rir em certos episódios da viagem de João Sem Medo. Usando de uma expressão mais popular, Gomes Ferreira conseguiu, em certas alturas, colocar Lewis Carroll “no bolso”. Esta é uma obra que fará vibrar a imaginação quer de miúdos, quer de graúdos.
Classificação: 5/5
“- Na verdade – admitiu a formiga – a maioria dos animais tornou-se muda. Que queres? Os homens diziam tantos disparates que, certo dia, os bichos, para não se confundirem com vocês, votaram a greve geral, a greve do silêncio que ainda hoje dura… Greve apenas furada pelos papagaios e outras aves sem categoria…
– É o costume. Não há greve sem “amarelos” – interrompeu João Sem Medo para não ficar calado.”

4 pensamentos sobre “Aventuras de João Sem Medo

  1. Conseguiste mesmo deixar-me curiosa em relação a esta obra de José Gomes Ferreira. Vou procurá-la numa próxima ida à livraria, pois do autor apenas conheço alguma poesia.
    Aproveito para agradecer a dica de leitura “Os da minha rua”, de Ondjaki.🙂 Também já está anotado.
    Boas leituras!

  2. Li este livro no meu distante 8º ano e lembro-me bem dele. É, de facto, hilariante mas muito sério também. Havia uns estranhos Choraquelogobebenses e uma menina que ou tinha pés de barros ou estava directamente ligada à terra – já não sei bem.
    É uma leitura bem recomendada, sim.🙂

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s