Gaibéus

Segundo os dicionários, gaibéus eram jornaleiros (trabalhadores agrícolas contratados que recebiam um determinado salário por dia) da zona do Ribatejo ou da Beira Interior que trabalhavam nas ceifas ou nas mondas das Lezírias. Nesta obra em particular, Alves Redol conta a vida de um grupo destes jornaleiros que trabalhavam na monda do arroz numa das lezírias do Ribatejo. Homens e mulheres que vinham de outras terras, como alugados para um trabalho duro, de sol a sol, e de parcos ganhos. Toda a narrativa retrata com um realismo cruel o modo de vida dos gaibéus, que ganhavam o seu sustento na época das mondas do arroz. Os maus-tratos, as más condições de trabalho, a exploração nua e crua, o abismo social entre o proprietário e o assalariado, a resignação e passividade de uns e a consciência e angústia de outros, são o tema desta obra de um escritor português que está algo esquecido.
Mais um escritor português que eu desconhecia e que me agradou bastante. Apesar de ser uma história dura e cruel, como referi em cima, não deixa de ser uma narrativa bem construída e que se lê bastante bem, apesar do registo da oralidade que Redol lhe imprimiu, registo esse que pode não ser tão familiar para a maioria das pessoas. Este é, sem dúvida, um livro que eu recomendo, um pouco como um alerta para as situações de escravidão que ainda hoje se verificam, em pleno século XXI, e que deveriam estar banidas, por força de sermos de facto pessoas e nações civilizadas, e não resquícios dos vícios do passado.
Classificação: 5/5
“Nos rostos terrosos, como pedaços moldados no lamaçal dos canteiros, há bagos de suor que o sol faz lucilar, como a orvalheira que ponteia o arroz. Mas o suor parece gelar nas faces cavadas pela fome guardada.

As roupas estão empapadas, a feder sujidade e cansaço.

Morre no ar o odor das espigas loiras cortadas e das flores crescidas à babugem. Fica o cheiro acre dos corpos molhados pela rudeza da labuta. Como por toda a lezíria se agigantam os alugados que se curvam a brandir as foices. Tudo que amesquinha ali, junto deles, que vivem necessidades de mendigos.”

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