Os Fidalgos da Casa Mourisca

Em tempos idos, havia uma tradição nas aldeias de chamar Casa Mourisca aos grandes solares senhoriais.  Na aldeia retratada nesta obra a tradição mantém-se e o solar da família Negrões de Vilar de Corvos fica conhecida por esse nome pelos seus habitantes. Os fidalgos da Casa Mourisca estão arruinados. Uma má gestão e o orgulho de D. Luís levaram a propriedade a esta situação. Porém Jorge, o filho mais velho, descontente com o rumo que a sua casa levava, pediu ajuda a um agricultor que prosperou, Tomé da Póvoa, antigo trabalhador na casa Mourisca. Tomé da Póvoa tem uma filha, Berta, que foi educada fora da aldeia e que regressa a casa. Jorge apaixona-se por ela, mas o orgulhoso e inflexível D. Luís não concorda nem com a recuperação económica proposta pelo filho, nem com a paixão que ele nutre por uma plebeia.
Foi com uma agradável surpresa que fiquei a conhecer a obra deste escritor portuense. Por partilhar a mesma escola realista com o poveiro Eça de Queirós, a escrita é também ela muito povoada de elementos colados à realidade, como as descrições dos lavores dos jornaleiros no campo. Mas o que distingue Júlio Dinis de Eça é a escrita muito simples, muito neutra e natural, sem as muitas figuradas de estilo que o escritor da Póvoa do Varzim utilizava. Esta é uma obra centrada numa problemática muito própria do século XIX, em que a classe aristocrática vai perdendo os seus privilégios para uma burguesia emergente e onde Júlio Dinis faz um excelente retrato de uma ruralidade assente em morgadios do interior que está a desaparecer com a chegada de novas ideias e novos ideais políticos a Portugal. Para quem aprecia a escola literária do realismo, este é um livro que recomendo vivamente.
Classificação: 5/5
“- Entendo, Tomé, entendo, e creio que essa é a verdade. Além de que – prosseguiu Jorge pensativo -, naqueles tempos, as classes privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incúria e de dissipação, porque os privilégios velavam por elas e remediavam-lhes os desvarios; adormeceram nessa confiança e não sentiram que tinham mudado as condições sociais, e agora ao acordarem…”

Um pensamento sobre “Os Fidalgos da Casa Mourisca

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s