Parábola do Cágado Velho

 
Neste livro, Pepetela retrata a guerra em Angola vista pelos olhos do camponês. Ulume e Muari habitam numa comunidade próxima da montanha. Com o passar dos anos, uma cidade, Calpe, ganha importância, provocando curiosidade nas gerações mais jovens da aldeia. Os filhos do casal acabam por partir também, juntando-se ao conflito armada, um em cada uma das facções. É um livro que assente nas tradições ancestrais angolanas, onde se retrata também uma história de amor marcado por tempos de guerra. Mas o ponto central da história, que lhe vem dar o nome, são as visitas de Ulume ao cágado velho, que todos os dias, pela mesma hora, sai da sua gruta e desce para beber na nascente. Ulume aproveita essas saídas do cágado para desabafar com ele, na esperança de que aquele velho animal algum dia tenha uma resposta para os seus anseios.
Comparando a escrita dos diversos escritores africanos que já li, percebe-se que existe em todas elas um denominador comum. Todos eles têm uma escrita cromática, fotográfica e sensorial. As descrições são feitas de maneira a transmitir ao leitor as cores quentes de África, os seus cheiros, as paisagens naturais inebriantes. É uma história interessante, passada num contexto de guerra, onde se aborda todas as repercussões que isso pode trazer a uma pequena comunidade rural. Achei também interessante a relação entre Ulume e o cágado. Apesar de tudo o que acontecia na sua aldeia, o homem ia sempre ver o cágado, mesmo quando a aldeia se mudou para um local bem mais distante. Este é o primeiro livro que leio da vasta obra deste escritor angolano que já queria conhecer há algum tempo e espero poder ler mais alguns durante este ano.
Classificação: 4/5
“Bárbaros! Nem nas maiores fomes tinha sequer pensado em o apanhar e assar, quando o cágado velho por ele passava todas as tardes. Por causa de heresias dessas estava o mundo desde sempre de patas para o ar, como o cágado na fogueira, a carapaça para baixo, a terra em cima do firmamento.”

3 pensamentos sobre “Parábola do Cágado Velho

  1. Por acaso, quando li no princípio deste ano Mia Couto e Ondjaki logo de seguida, notei essa semelhança, dos sentidos (visão, olfacto, audição… tudo!) muito presente.

    Também cá tenho este para ler!

    Tiago

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