A Varanda do Frangipani

No asilo de S. Nicolau, a varanda que ficava defronte para a frangipaneira era um ponto principal. Foi debaixo da sombra dessa mesma árvore que Ermelindo Mucanga foi enterrado. Mas como não foram seguidos os rituais devidos, Ermelindo não alcançou o estatuto de xicuembo, um morto definitivo. Para alcançar esse estatuto, Ermelindo teria que “remorrer”. Para isso, incorpora-se no polícia Izidine Naíta, que vem ao asilo investigar a morte de Vasto Excelêncio, o director da instituição. Este é um romance onde se desenvolvem, nitidamente, várias narrativas visto que as personagens são, em simultâneo, narradores da sua própria história, as quais se entrelaçam com a narrativa principal, o descobrir do culpado da morte de Excelêncio. Mas analisando mais a fundo, percebe-se que a história dá asas a outro tema, a crítica que sobre o tráfico de armas, num período inicial de recuperação da guerra.
Mia Couto é um dos meus escritores lusófonos preferidos. O modo como brinca com as palavras, bem como todo o ambiente africano que põe nas suas descrições, dão uma magia diferente à escrita, tornando os seus livros intensos e carregados de uma beleza exótica. Correndo as 151 páginas deste livro encontram-se muitas palavras com que Mia brincou: chamatriz, atropelias, cordão desumbilical, pandemoniando, atrapalhaço, etc. Tendo em conta que a obra deste moçambicano é extensa, ainda tenho muitos livros dele para explorar neste ano.
Classificação: 4/5
“Nunca fui homem de ideias mas também não sou morto de enrolar língua. Eu tinha que desfazer aquele engano.Caso senão eu nunca mais teria sossego. Se faleci foi para ficar sombra sozinha. Não era para festas, arrombas e tambores. Além disso, um herói é como o santo. Ninguém lhe ama de verdade. Se lembram dele em urgências pessoais e aflições nacionais. Não fui amado enquanto vivo. Dispensava, agora, essa intrujice.”

4 pensamentos sobre “A Varanda do Frangipani

  1. Tenho cá este livro, graças à revista Visão, e gostei da crítica – fiquei curioso em relacção à sua leitura. Já li Jesusalém, também de Mia Couto, e gostei da experiência. 🙂 Tem um estilo de escrita peculiar! Os neologismos são engraçados de descobrir.

    Bom Carnaval!

  2. Se não estou em erro, esse foi o primeiro livro que li do Mia Couto. Já foi há alguns anos (seguramente mais de 10) e por isso já não me recordava bem da história. No entanto lembro-me que a edição, do Circulo de Leitores, era muito bonita… Tenciono voltar a lê-lo, pois acho que na altura não soube apreciar toda a beleza da escrita do Mia Couto.

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