Bichos

Bichos é o retrato fiel do quotidiano transmontano. Uma vida pautada de suor e lágrimas, por entre vales e lobos, mas sempre repleta daquela alegria de ser simples, de viver em comunhão total com a natureza, em fusão permanente com os elementos. Miguel Torga fez desta obra um testemunho inigualável da união natural entre os Homens e os bichos. Entre os dois, a terra, o denominador comum que lhes dá vida. No trabalho, nas paixões ou nas dores, os bichos compartilham com os homens as esperanças e as desgraças. 
Esta é uma obra que retrata bem as raízes mais rurais de Miguel Torga, bem como o seu apego às origens, bem latente na sua poesia. Através de vários contos, Torga traz à vida diversos animais que povoam o universo rural como os cães, as galinhas, os cavalos, os pássaros, etc. Foram vários os contos que me tocaram particularmente, em especial o intitulado “Nero”, por causa de uma situação idêntica que vivi na infância. Apesar de ser um livro pequeno (94 páginas), é uma obra lindíssima.
Classificação: 5/5
“Apesar disso, no íntimo, considerava-se propriedade dos três: da filha, do velho e da velha. Com eles compartilhara aqueles longos oito anos de existência. Com eles passara invernos, outonos e primaveras, numa paz de família unida. Também estimava o outro, o fidalgo da cidade, evidentemente, mas amizades cerimoniosas não se davam com o seu feitio. Gostava era da voz cristalina da dona nova, da índole daimosa da patroa velha e da mão calejada do velhote.”

3 pensamentos sobre “Bichos

  1. Curioso que há uns dias li num outro blog uma crítica que dizia mal do livro, que se resumia num conjunto de contos que colmatavam com a morte de animais… e agora esta diz muito pelo contrário.

    A única coisa que li de Miguel Torga foi a sua poesia, e gosto dela. Agora sinto-me «na obrigação» de ler Bichos, e decidir qual das duas críticas está mais próxima daquilo que eu achar 🙂

  2. Tiago, eu percebo que para algumas pessoas a morte dos animais não seja algo fácil de aceitar, aguentar, suportar, etc. Mas para quem, como eu, está ligada a um universo rural, a morte de certos animais é a coisa mais normal deste mundo. Decapitar uma galinha, as crianças que na infância torturavam sapos por se dizer que eram portadores de feitiços, tudo isso são lugares-comuns de quem sempre viveu no campo, daí não me impressionar nada.
    Agora, como eu dizia na minha opinião, só houve um conto que me marcou, “Nero”. Na minha infância, um dos cães da família teve um fim semelhante, e a história trouxe-me essas memórias.
    Para rematar, gostar ou não gostar de “Bichos” é apenas uma questão de sensibilidade.

  3. Sim, eu entendo que, no fundo, todos os livros sejam um pouco assim – de pessoa para pessoa, os sentimentos a e as vivências destas possam mudar. Uma mesma história pode ter vários sentidos; que não têm de ser obrigatoriamente, aliás, os do autor. Já Fernando Pessoa disse uma vez num poema seu que não escrevia aquilo que sentia – para sentir, sentisse quem lesse. 🙂

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s