Poemas de Deus e do Diabo

José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901. Licencia-se em Filologia Românica em 1925, na Universidade de Coimbra. Em 1927, fundou a revista Presença, em conjunto com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, considerada como um marco da segunda vaga do modernismo português. Depois de mais de 30 anos a leccionar num liceu de Portalegre, José Régio volta a Vila do Conde onde morre a 22 de Dezembro de 1969. Quer a casa de Portalegre, quer a de Vila do Conde foram transformadas em museu.
Como vilacondense que sou, não ter ainda dedicado algum tempo a este grande poeta da cidade é para mim uma falta com alguma gravidade. Publicado em 1925, Poemas de Deus e do Diabo foi o primeiro livro que Régio escreveu usando o seu pseudónimo. O livro conta com 21 poemas e inclui também o posfácio escrito pelo autor para a 13ª edição original da obra em 1969. Nesse mesmo posfácio, Régio aborda temas como a sua experiência pessoal como escritor, as influências de autores de referência na literatura e o papel da critica literária. Apesar de esta ser apenas uma pequena amostra da genialidade do poeta, deixou o bichinho da curiosidade para explorar bem mais.

Classificação:5/5

Cântico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

8 pensamentos sobre “Poemas de Deus e do Diabo

  1. O poema Cântico Negro foi-me apresentado antes dos meus trinta anos,por uma querida paciente.Devo-lhe a oportunidade,pois seus versos ajudaram a manter a minha alma “Desassossegada”, assim como também o grande vate Fernando Pessoa.Ouví-lo declamado no Clube Português de Niterói,Rio de Janeiro,Brasil,com o sotaque lusitano,foi uma glória.Contextualizá-lo, é preciso.
    Juliolohmann.comamoregratidao

    • Meu caro, ambos os sotaques têm a sua magia.
      Por exemplo, o ano passado, durante o Rock in Rio Lisboa, ouvir o Lenine a cantar uma música tão conhecida em Portugal como é “A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)” no seu sotaque natal foi uma deliciosa surpresa. E quem diz isso, diz uma bela bossa nova.
      Obrigada pela visita e pelo comentário. Boas leituras 🙂

  2. Bom dia Pessoal,

    Por favor, estou querendo comprar este livro (Poemas de Deus e do Diabo) para uma amiga mas não encontro no brasil, alguém tem alguma sugestão?

    Obrigado,

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