Laços de Família

Publicado em 1960, Laços de Família reúne 13 contos escritos pela escritora entre 1943 e 1955. Os 13 contos chamam-se: “Devaneio e embriaguez duma rapariga”, “Amor”, “Uma galinha”, “A imitação da rosa”, “Feliz aniversário”, “A menor mulher do mundo”, “O jantar”, “Preciosidade”, “Os laços de família”, “Começos de uma fortuna”, “Mistério em São Cristóvão”, “O crime do professor de matemática” e “O búfalo”. A maioria dos protagonistas dos contos são pessoas comuns abaladas por uma epifania durante suas actividades do quotidiano (como as compras no supermercado em “Amor” ou uma reunião de família em “Feliz Aniversário”). Como o próprio título sugere, as personagens de Laços de Família são na sua maioria donas de casa que lutam para equilibrar as exigências que advêm do casamento e da família com uma vida menos controlável e selvagem. Esse tema pode ser observado no conto “Amor”, onde a vida organizada de Ana desaba quando ela se confronta com um “selvagem” Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.
Clarice Lispector é uma autora pouco conhecida em Portugal. Tive a oportunidade de ouvir falar um pouco dela através da divulgação que o Tiago Sousa Garcia fez do Projecto Clarice no seu blog, o Livros [s]em critério, pelo que decidi dedicar algum do meu tempo a esta escritora brasileira de origem ucraniana. A escrita de Clarice tem algo de diferente de todos os outros autores que li. Se numa primeira abordagem, parece que a caneta é o prolongamento do pensamento, em que a prosa escrita flui ao sabor de pensamento (a repetição de pequenas frases dá asas a essa conclusão, como se houvesse uma repetição de pensamento no sentido de encontrar uma continuidade), numa segunda abordagem percebe-se que nunca se encontra o mesmo contexto para a mesma frase aquando de uma re-leitura. Em conclusão, é um registo de escrita muito interessante. Resta-me ler os restantes dois livros que adquiri da autora para saber se esta aposta em Clarice Lispector foi ganha ou não.
Classificação: 4/5

“Há um velho equívoco sobre a palavra amor, e, se muitos filhos nascem desse equívoco, tantos perderam o único instante de nascer apenas por causa de uma susceptibilidade que exige que seja de mim, de mim!, que se goste e não do meu dinheiro. Mas na humidade da floresta não há desses refinamentos cruéis, e amor é não ser comido, amor é achar bonita uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha. Pequena Flor piscava de amor, e riu quente, pequena, grávida, quente” (Em “A menor mulher do mundo”)

2 pensamentos sobre “Laços de Família

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