Hotel Memória

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Na cidade que nunca dorme, Nova Iorque, surge-nos um narrador do qual não sabemos quase nada. Apenas que é um estudante de pós-graduação em Literatura Inglesa e que tem um fascínio pelo livro Moby Dick de Herman Mellville. Quando Kim, uma jovem e misteriosa mulher, entra na vida do nosso narrador que ora responde pelo nome Ismael, ora por Bartleby, no espaço de poucos meses este sobe aos céus de felicidade e desce aos infernos da depressão e da auto-destruição, procurando uma anestesia para a sua dor no fundo de cada copo bebido. É na sequência desta espiral degenerativa que o agora ex-estudante vai parar ao decrépito Memory Hotel e o seu destino se cruza com duas personagens peculiares e misteriosas: Samuel, um excêntrico e algo obcecado milionário russo; e Daniel da Silva, um fadista de Lisboa que conquista os Estados Unidos com a sua voz, o seu talento e a originalidade das músicas que canta.

Memória… Escreve Paul Auster que “…a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios.” Todas as memórias trazem consigo sentimentos agridoces. Umas queremos mantê-las presentes, outras queremos esquecê-las o mais rápido possível. João Tordo traz aos leitores, neste livro, um enredo envolto em mistérios, segredos e intrigas. No entanto, nenhum desses mistérios fica perdido ou ar ou fica por desvendar. Demore mais ou menos páginas, tudo acaba por ter uma conclusão até à última das páginas. Por isso mesmo, é um enredo complexo, onde passado e presente se encontram em factos concretos que nos deixam quase incrédulos. Outro dos pontos interessantes do livro é o estilo da escrita. Ao descrever com palavras muito ligadas aos sentidos cada momento e cada lugar, o leitor é arrastado para a mente da personagem. Parece que estamos presentes a assistir a cada golpe infligido a Ismael, sentimos o medo provocado pelas ameaças de Sakovski ou somos arrastado para o desânimo que não esmorece, por mais álcool que se beba. Falando de novo em memória, e em jeito de conclusão, este é um livro que fica na memória.

Classificação: 5/5

O presente era a memória de si próprio, e era possível existir apenas se pudéssemos conservar as recordações de momentos que nunca se repetiriam. E, no entanto, paradoxalmente, a memória era aquilo que de mais falível um homem possuía: nomes esquecidos ou trocados, caras que se confundiam com outras’ lugares onde julgávamos já ter estado, um lápis desaparecido para sempre, os constantes deslizes que tornavam a realidade o lugar de um romance, de uma história, encantadora pela sua falibilidade, e não pela sua certeza.

Opinião re-escrita a 8-Fev-2014

5 pensamentos sobre “Hotel Memória

  1. Já as histórias do João Tordo estão sempre a surpreender-me. Do autor li “As três vidas” e o “Bom Inverno”. Fiquei com vontade de ler este “Hotel Memória”. 🙂 Um outro que também ando de olho é “O Livro dos Homens Sem Luz”.
    Boas leituras!

  2. O “Bom Inverno” é um romance um tanto ao quanto negro, mas a história está tão bem conseguida que me conseguiu envolver e já não consegui deixar aquelas personagens sem saber qual o fim de cada uma delas. Acredito que também irás gostar. 😉
    Boas leituras!

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