Os Pássaros de Seda

Rosa Lobato de Faria

Em pleno Estado Novo, ter em casa uma colcha com um famoso Dê dourado era sinal de que se tratava de uma família com algumas posses. A sua autora era Diamantina Flores, uma jovem mulher que nasceu num meio pobre e que descobriu a sua vocação para os bordados em casa dos Tios Zebra e Margarida, para onde foi viver após a morte dos pais. Com o 25 de Abril, as colchas da Diamant. deixaram de ser apenas um luxo de vilas alentejanas e espalharam-se por Portugal e passaram fronteiras, chegando aos quatro cantos do Mundo onde existia um português. Diamantina conheceu, então, uma vida mais desafogada e ao mesmo tempo atribulada. Quem nos conta toda esta história é Mário, o primo e seu eterno apaixonado. Por brincadeira, tinha proposto a Diamantina escreverem a sua vida e depois entregar ao outro para que lesse. Mas Mário conta no fim das suas memórias que “escrevi a história da tua vida porque, que novidade, a minha vida és tu.”

Terminar um livro de Rosa Lobato de Faria, autora que primava por escrever sobre mulheres marcantes, tão perto do Dia da Mulher é pura coincidência. Esta faceta da saudosa “Rosinha”, a das mulheres fortes, determinadas, que não têm medo de viver, agrada-me muito. Coloca-a num patamar muito próximo de Isabel Allende. Falando da personagem Diamantina, é daquelas mesmo muito completas e fascinantes. Lobato de Faria explora vários tipos de sentimentos, faz a personagem balançar entre a fraqueza e a força, leva-a numa viagem atribulada que vai do céu ao inferno. No que diz respeito à escrita, a autora aposta num registo muito sensorial. As descrições, por exemplo, da cor das searas de trigo, das panelas de marmelada a ferverem lentamente ao lume ou a imagem das ceifeiras a cantarem enquanto colhem o trigo dão ao livro um ambiente mágico. Magia essa que se alia perfeitamente ao misticismo que encontramos ao longo de todo o enredo, presente nas várias lendas, mitos e histórias contados à lareira pelo Tio Zebra. No fundo, um livro que, para mim, nunca se perderá nas brumas do tempo.

Classificação: 5/5

Para mim, os pássaros de seda são assim as asas de quem tem um dom. E aquele cor-de-fogo, com as asas abertas e olhos que vêem muito para lá do horizonte, é o tio Zebra, com o seu condão das histórias e dos impossíveis.

Opinião re-escrita a 10-Mar-2014

Um pensamento sobre “Os Pássaros de Seda

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s