O Fio das Missangas

Mia CoutoSão 29 os contos que Mia Couto nos apresenta, bem juntinhos e seguidos como missangas no fio. Contos curtos, cada um com seu propósito. Sentimentos e situações variadas atravessam também cada um. O drama da violência doméstica em Os olhos dos mortos, a dor da perda em Inundações, a resignação da partida de alguém querido em O cesto, as questões raciais em O novo padre, a quebra do preconceito que “homem não chora” em Os machos lacrimosos, os mistérios da morte em Entrada no Céu e O rio das Quatro Luzes ou até mesmo o também ele drama da solidão dos mais velhos em A Carta de Ronaldinho e Enterro Televisivo. Contos que aparentemente são simples mas que mascaram beleza e complexidade com essa simplicidade.

Acho que já o disse mais do que uma vez, gosto muito dos livros de Mia Couto. Aliás, sempre que me pedem recomendações de autores africanos o primeiro nome que sai da minha boca é o de Mia Couto. A sua escrita tem uma magia especial, inexplicável. Mas falando deste livro em particular, confesso que deixa um bocadinho a desejar. Cada conto é curto demais, fiquei sempre a pedir um bocadinho mais de enredo com cada uma das personagens. Quando este estava a tornar-se interessante, eis que chegava o ponto final e toca a passar para o conto seguinte. Claro que nada disto implica que o livro seja mau. Muito pelo contrário. A tal magia inexplicável está lá. A brincadeira constante com as palavras (“mundidão”, “inutensílio”, “almarrotada”, “dezanovinha”, “traumatombos” e tantos outros) está lá. A escrita inebriante, sensitiva e cromática dos escritores africanos está lá. Só que, para muita pena minha, está em doses pequeninas. No entanto, para quem quiser começar a tomar pulso à escrita deste autor moçambicano, julgo que este será o livro ideal para o fazer.

Classificação: 4/5

“São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.” ( A despedideira)

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